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Arte para resistir e vivenciar: Livro “Lantejoulas no Mangue” relembra grupo de teatro pernambucano LGBTQIA+ criado em plena ditadura militar

Foto do escritor: Thallys Rodrigo
Thallys Rodrigo
há 11 minutos
6 min de leitura

Inspiração para o filme “Tatuagem”, grupo de teatro Vivencial floresceu nos anos 70 e 80 e é tema de novo livro do jornalista Márcio Bastos.


Foto: Divulgação / Editora Autêntica
Foto: Divulgação / Editora Autêntica

Mais do que a busca de domínio político, o Golpe Militar de 1964 foi uma tentativa de homogeneização e silenciamento cultural. Com ele, buscava-se construir um projeto de Brasil pautado em silenciar tudo que divergia dos valores conservadores. Porém, não há proibição que cale, plenamente, quem tem sede por liberdade e muito a expressar. E aqueles que não tinham permissão para falar, criar ou ser, encontravam um meio de extravasar. 


Da Tropicália a Ney Matogrosso, do grupo Dzi Croquettes ao jornal Lampião da Esquina, muitos são os exemplos das expressões contraculturais durante o período ditatorial. “Lantejoulas no Mangue: Teatro e desbunde do Vivencial”, novo livro do jornalista Márcio Bastos, conta a história de uma dessas iniciativas - menos conhecida, mas não menos transgressora - vinda de uma área precária de mangue entre Recife e Olinda. 


Ativo entre 1974 e 1983, o grupo de teatro Vivencial foi um oásis de liberdade em um dos períodos mais opressivos do país. Quando se impunha o normativo, o coletivo reuniu quem estava para além da norma, tornando-se um marco da arte LGBTQIAP+. Marginalizados por questões de gênero, sexualidade, raça, classe social, dentre outras, os integrantes se encontraram para produzir arte marcada pela espontaneidade, bom humor e teor combativo. 


Foto: Zé Guilherme
Foto: Zé Guilherme

Em cena, falava-se de desejo, luta de classes e temáticas que iam além dos muitos tabus impostos. Foram mais de 30 peças e diversas performances, em meio à ameaça da censura e da polícia. Obra de gente sem vergonha do gozo - seja do humor ou do sexo - e cuja existência, por si só, era protesto, do corpo à arte. Um universo particular pautado pela irreverência e modos dissidentes de ser.


“O impacto do Vivencial não se restringiu ao seu tempo de atuação. Dessa experiência nasceram Cinderelas que, cientes de que jamais seriam convidadas para o baile, preferiram ser malditas e inventar os próprios castelos”, declara Márcio Bastos, em trecho da obra. 


Quem já assistiu ao filme “Tatuagem” (2013, Hilton Lacerda) talvez ache tudo isso muito familiar: o Vivencial foi uma das principais influências para o grupo Chão de Estrelas, fio condutor do longa. 


Fruto de extensa pesquisa que reúne quatro décadas de materiais, “Lantejoulas no Mangue” se debruça sobre fotografias, matérias e arquivos de fontes públicas para contar essa história. Já em pré-venda, a obra terá, eventos de lançamento em diversas cidades, a começar por Olinda, a partir de 10 de outubro, às 14h, no Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco.


A obra integra a coleção Nossas Histórias da Editora Autêntica, que retrata episódios marcantes das lutas, conquistas e identidade LGBTQIA+ no Brasil.


Com a chegada do lançamento, conversamos com Márcio Bastos sobre a obra e a importância de contar essa história neste momento. 


Foto: Acervo Guilherme Coelho
Foto: Acervo Guilherme Coelho

Como surgiu a ideia de falar sobre o Vivencial?


Fui convidado por Schneider Carpeggiani e Renan Quinalha para contribuir com a coleção "Nossas Histórias", da Autêntica, voltada para o resgate de marcos da luta e fervo da comunidade LGBTI+ no Brasil. Eles sabiam da minha pesquisa em torno do grupo, a partir do meu livro anterior, "Pernalonga: uma sinfonia inacabada", e achavam que o Vivencial merecia ter sua trajetória celebrada. Tive a oportunidade de me aprofundar no universo do grupo e de perceber como a influência das vivecas, como eram chamados os membros do grupo, está não só nos palcos de Pernambuco, como na comunidade LGBTI+. O Vivencial foi um marco de resistência que continua inspirando.


Quais pontos da história do grupo e seu impacto mais te chamaram atenção no decorrer da pesquisa?


O Vivencial não se limitava a ser um grupo de teatro. Enxergo o grupo como uma grande comunidade, um movimento. A eles, interessava confrontar o sistema, mas de uma maneira muito própria: celebrando as existências dos dissidentes, com humor e desejo. Acho que as contribuições do Vivencial para a comunidade LGBTI+ de Pernambuco ainda são pouco exaltadas. O Vivencial Diversiones, café-concerto que eles mantiveram em uma área de mangue, no Complexo de Salgadinho, era não só mantido por esses dissidentes, como também colocava os grupos minorizados em destaque nos palcos: mulheres, pretos, pobres, pessoas LGBT. Era um grupo muito democrático e diverso, que ajudou uma parcela da população, a mais conservadora, a se confrontar com essas existências que, normalmente, eram invisibilizadas. 


Para você, quais características do Vivencial mais podem gerar identificação com o público da atualidade?


Vivemos um momento muito sombrio, com pessoas pedindo a volta do autoritarismo, exaltando o preconceito e a discriminação. O Vivencial é o oposto disso. O grupo acreditava na beleza da pluralidade e na beleza que existia mesmo no que era descartado. Mantiveram a alegria como uma arma de combate e a coletividade como uma forma de organização e resiliência contra a ditadura. Um exemplo que, sem dúvidas, precisamos agora.


Crédito: Guilherme Marcelino
Crédito: Guilherme Marcelino

Na sua visão, por que é tão importante que a juventude LGBTQIAP+ conheça essa história? E o público geral? E quais os efeitos de contar a história de um dos grandes marcos da arte combativa e política local no atual contexto, tão influenciado pelo conservadorismo?


É sempre essencial que conheçamos nossa história para que vejamos o quanto avançamos e, também, os riscos que corremos de retroceder. Porque tudo que temos foi fruto de esforços e sacrifícios dos que nos antecederam e é nossa obrigação lutar para preservar as conquistas e continuar pleiteando por avanços. No livro, busquei contextualizar como era o clima para as dissidências sexuais e de gênero nos anos anteriores ao surgimento do Vivencial, durante a existência do grupo e também nas décadas seguintes. O Vivencial não estava isolado, era um resultado do seu tempo, das angústias que movimentavam o mundo, com os grupos minoritários buscando reconhecimento e direitos. Hoje, permanecemos no esforço de garantir que as existências socialmente vulnerabilizadas possam viver sem medo. O Vivencial era formado por pessoas de diferentes realidades, também havia heterossexuais no coletivo, todos com o objetivo comum de criar um ambiente seguro para que cada um pudesse viver sua verdade. Essas pessoas arriscaram as vidas para que pudessem, mais do que fazer arte, existir plenamente. Lembrar e celebrar esse legado pode nos dar forças nesse momento tão decisivo para o Brasil e o mundo.


O filme Tatuagem - uma das produções cinematográficas mais populares do estado - traz a trupe Chão de Estrelas, inspirada diretamente no Vivencial. De que forma a experiência de “Lantejoulas no Mangue” pode complementar a experiência do público do filme sobre temas como repressão, liberdade e cultura LGBTQIAP+?


Ao ler o livro, muitas coisas do filme farão ainda mais sentido. Hilton Lacerda fez um trabalho primoroso de capturar o espírito transgressor do grupo, sua alegria, deboche e sensualidade. A precariedade de recursos, a solidariedade e todas as inquietações daquela juventudade vivendo sob um governo ditatorial são retratadas de maneira muito bonita e original no filme. Mesmo não usando o nome do Vivencial, o longa retrata a potência do grupo e, por isso, vem encantando os espectadores desde sua estreia. Espero que o livro ajude a ampliar esse universo estético e afetivo e lance ainda mais luz sobre o legado das vivecas.


De que forma escrever esse livro transformou sua visão sobre as temáticas abordadas? E de que forma você acredita que a história do Vivencial pode transformar a visão do leitor?


Como pessoa LGBTI+ sempre experienciei o que é se sentir diferente, o medo da exclusão e, ao mesmo tempo, a força da ideia de comunidade. Porque nós sempre resistimos e pudemos contar uns com os outros e também com aliados, que respeitam e lutam conosco pelas nossas existências. Quanto mais pesquiso sobre a nossa comunidade, mais me encanto pela força e coragem dos que nos antecederam. Daí a importância de iniciativas como a coleção "Nossas Histórias", da Autêntica. Precisamos contar sobre nós, fortalecer nossa memória e mostrar que, ao redor do Brasil, sempre houve e sempre haverá persistência contra o obscurantismo. Além disso, foi fascinante conhecer mais sobre o teatro e as experimentações estéticas radicais do Vivencial. Era um grupo que não se limitava pela falta de recursos: usava a inventividade e o truque para fazer emergir a beleza.


Serviço


Lançamento do livro “Lantejoulas no Mangue”

Bate-papo com o autor Márcio Bastos e o jornalista Schneider Carpeggiani

10/10, sábado, às 14h

Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco

Rua 13 de Maio, 149 - Olinda

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