A Empregada diverte apesar de clichês rasos
- Bianca Dias
- há 6 dias
- 4 min de leitura
Filme baseado no best-seller de Freida McFadden aposta em nomes famosos para viver thriller frenético ao mesmo tempo que que confunde intensidade com profundidade

Você é daqueles que consegue separar o artista da obra? Na era das redes sociais e múltipla troca de informações, é difícil não ter já uma opinião formada dos atores do momento, uma vez que suas ações no mundo de fora podem falar muito dos seus valores e personalidade. Para fazer uma crítica, é importante a gente focar os olhos somente no roteiro, porém, quando ele envolve a atuação de Sydney Sweeney, um dos nomes mais envolvidos em polêmicas atualmente, o desafio é maior. E fica ainda mais complicado quando ligado a um filme com muitas expectativas do público, como é o caso de 'A Empregada'.
O enredo é baseado no best-seller de mesmo título da autora Freida McFadden, que teve sua história adaptada pelo diretor Paul Feig, conhecido por levar narrativas femininas – em sua maioria de comédias – para as telonas. O cenário foi diferente com ‘A Empregada’, que se destaca como um thriller repleto de reviravoltas.
A produção retrata a vida de Millie (Sydney Sweeney), uma jovem com passado conturbado que consegue um emprego como empregada doméstica para o rico e aparentemente perfeito casal Nina e Andrew Winchester (Amanda Seyfried e Brandon Sklenar). Ela, entretanto, logo descobre que a casa esconde segredos sombrios que podem ser muito maiores com o seus, colocando até sua própria vida em perigo.

A sinopse já adianta que estamos lidando com uma história já conhecida, e isso é comprovado já no início. O longa passeia por estereótipos batidos, como a da aparentemente “mocinha” ingênua sempre à beira do perigo, interpretada por Sweeney; a patroa com instabilidade emocional muito bem retratada pela visivelmente mais talentosa Seyfried; e o marido coitadinho, vivido por Sklenar, que precisa lidar com esse turbilhão de emoções na sua vida conjugal.
É por isso que “A Empregada", em primeira instância, não surpreende. O trio segue seus papéis como o esperado, ocorrendo a óbvia aproximação da funcionária com o patrão, enquanto há ameaças constantes da esposa instável. Nesse meio, temos que lidar com mais um clichê: a tensão sexual palpável que toda personagem de Sydney precisa passar em seus trabalhos para, enfim, chegar nas cenas de sexo do casal atraente. Não sei se faz parte do contrato, no entanto, a atriz sempre está envolvida em uma cena que mascara uma óbvia objetificação do seu corpo. Mas não vou entrar neste mérito…

Apesar de tantos elementos já conhecidos pelos espectadores, eles continuam presos à trama porque sabem que vai rolar um plot twist. E é o que acontece, surpreendendo todos que não leram o livro e não estão tão afim de pensar profundamente no roteiro. O lado positivo é que o longa traz um flashback bem detalhado da verdade que corrompe aquela família e faz a audiência ansiar pelo que vai se desenrolar para resolver toda a confusão.
Nesse meio tempo, o suspense fica mais sombrio e verdadeiro, revelando a personalidade de todos por trás das suas máscaras cínicas. A personagem de Sweeney ganha mais facetas e vive uma aventura cheia de absurdos improváveis, um certo grafismo e violência potencializada para se safar do real vilão. Alguns podem ficar incomodados com esse trecho da produção, porém já é de se esperar quando tratamos de Paul Feig – quem já assistiu a ‘Um Pequeno Favor’ sabe do que estou falando – e é até válido para tornar a história mais acelerada e emocionante.
‘A Empregada’ termina com uma “improvável” parceria entre as protagonistas e deixa espaço para uma possível sequência em que Millie se consagraria como a Robin Hood das mulheres vítimas de violência doméstica. Isso até intriga um pouco o espectador, pois seria o segundo filme uma oportunidade para explorar os temas sérios que cercam o roteiro, entretanto nunca são devidamente tratados? Enfim, acredito que essa nunca foi a intenção real da própria autora e muito menos do diretor, interessados somente em entregar um thriller em que o público fica ansioso pela próxima cena.
De qualquer forma, a produção conclui sua missão genuína, satisfazendo a maioria dos fãs da obra original. Esses talvez só fiquem um pouco decepcionados com alguns detalhes deixados de lado, como a relação de Nina com o jardineiro Enzo (Michelle Morrone), uma eterna promessa a se desvendar no longa, porém nem como apoio emocional ele se concretiza nas telas. No entanto, ficarão felizes com algumas adições feitas na versão adaptada – destaque para a trilha sonora bem pop girly, com direito a ‘I Did Something Bad’ de Taylor Swift, ‘Cinnamon Girl' de Lana Del Rey e até ‘Since U Been Gone', de Kelly Clarkson, que rende uma cena maravilhosa estrelada por Seyfried. Rolou fan service com playlist neo-feminista inspired total!
Voltando ao questionamento do início do texto, dá para aproveitar bem o filme em questão mesmo não aprovando as condutas de Sydney na vida real. É fato que ela é uma boa atriz e convence – até demais – no papel de mulher indefesa e inocente, mas que esconde outra versão dentro de si. Ao lado de Amanda Seyfried, Sweeney entrega uma boa dinâmica e satisfaz quem foi ao cinema passar o tempo e se entreter, sem se preocupar com incoerências dramáticas.
Veredicto: 3/5












