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'Dia D' provoca ao retratar o dilema humano sobre as verdades que envolvem a vida extraterrestre

  • Foto do escritor: Rayane Domingos
    Rayane Domingos
  • há 5 dias
  • 4 min de leitura

Com direção de Steven Spielberg, o filme tenta trazer uma nova perspectiva sobre a relação entre os humanos e ETs tendo como plano de fundo o caótico mundo atual



A humanidade convive com dúvidas relacionadas a sua existência no universo desde o início dos tempos, criando teorias diversas para entender o motivo de sobrevivermos enquanto comunidade na terra. Parte dos questionamentos conseguiram ser sanados ao longo dos séculos, como o que é feito o sol e a função da gravidade. Dentre esses, um ainda não foi resolvido e aflige boa parte dos habitantes deste planeta: será que estamos realmente sozinhos?


Enquanto a ciência não responde de vez essa dúvida cruel e milenar, os humanos vão criando cenários e possibilidades sobre a existência dos alienígenas e o que eles vão fazer quando chegarem na terra, ou se já não chegaram. E esse é um dos assuntos abordados em Dia D ('Disclosure Day'), o novo filme de Steven Spielberg.


Em uma mistura de suspense, mistério e humor, o longa é estrelado de forma brilhante por Josh O'Connor, Emily Blunt, Colman Domingo, Colin Firth, Eve Hewson, Wyatt Russell e Henry Lloyd-Hughes.


Quem some na multidão, esconde a sua verdade



Dia D começa frenético com uma cena de perseguição e diálogos sobre um assunto que o público não entende. Daniel Kellner é um especialista em cibersegurança, que está tentando proteger dados importantes de uma organização. Junto com a namorada, que estava sequestrada, ele passa por momentos de tensão para fugir de ser pego e evitar que as informações voltem para as mãos erradas, que tenta esconder a verdade do mundo.


Nessa guerra de gato e rato, o mundo de Daniel se colide com o de Margaret Fairchild, a garota do tempo de um telejornal que vive mais um momento diferente na carreira e no relacionamento. A vida estruturada toma rumos diferentes quando um dia, ao aprestar a previsão do tempo, ela começa a falar uma língua estranha e desconhecida pelos humanos.


É interessante como mesmo sabendo do que se trata o filme, porque não é novidade que seja sobre alienígenas, a gente fica na expectativa para saber quando as coisas vão acontecer. A surpresa é saber que já está acontecendo, e provavelmente você deixou passar batido porque estava preso prestando atenção em outra coisa. A história começa a ser contada devagar, mas nada que seja chato porque a todo tempo lembramos que o filme é do Spielberg e ele vai conseguir te abduzir por pelo menos duas horas.


O diretor não precisa provar nada a ninguém, por toda contribuição que deu à indústria cinematográfica, mas faz questão de esbanjar o seu imenso talento e sagacidade para conduzir o filme. São inúmeras as produções que tratam sobre os ETs, mas Spielberg e o roteirista David Koepp tentam sair da caixinha das obviedades sobre alienígenas para tentar explorar outro viés.


As cenas de ação são muito bem dirigidas e ajudam a criar toda a tensão, preservando o mistério mesmo quando o cenário parece ser óbvio. O filme tenta sair desse lugar comum de ser mais uma produção sobre alienígenas e não segue a "cartilha" do que precisa ser feito para criar medo em quem assiste. A fotografia é muito bem utilizada a favor, e como é de característica do diretor, a trilha sonora é incrível e dá todo o tom necessário na construção do mistério.


Será que alguém pode me responder?



No mundo caótico e dominado pela pós-verdade, qual o impacto social, político e espiritual na vida do ser humano quando ele descobrir que os alienígenas existem? Acho interessante que essa discussão permeia boa parte do filme, trazendo muitas dúvidas e propondo reflexões. Outro grande trunfo é fazer com que a história se passe na atualidade, com iminência de mais uma guerra mundial e outras problemáticas que envolvem a situação geopolitica do mundo.


A história já nos provou inúmeras vezes que o jornalismo é uma das bases principais para a democracia de qualquer país. Em tempos sombrios, em que governos autoritários se estabelecem e a onda do conservadorismo só cresce, ver o jornalismo ser bem retratado nas telonas é uma grata surpresa.


Considerando a situação atual dos Estados Unidos com o governo de Donald Trump, não é bem uma surpresa a valorização do jornalismo para falar sobre a verdade. Mas é interessante colocar esses profissionais no centro da história, como voz importante e talvez a única possível para retratar de forma séria e com evidências sobre o assunto.


Cuidado, o que se vê pode não ser...será?



Spielberg faz um retrato sensível e existencial sobre as consequências da verdade e se o mundo está preparado para descobri-la. Acho interessante colocar a religião no meio da discussão sobre o que é certo ou errado pela perspectiva de Deus, e também como o humano pode enxergar esses seres alienígenas também como um novo Deus.


O lúdico se faz muito presente durante a parte final do filme, trazendo o imaginário infantil para o centro da história. O diretor traz as referências dos seus próprios filmes, como o icônico E.T. O Extraterrestre, nos convidando para mergulhar no mar ainda maior de sensibilidade, dúvidas e delicadeza sobre a relação aparentemente amistosa entre aliens e humanos.


E tudo isso funciona muito bem porque tem um elenco brilhante que sustenta a narrativa. Emily Blunt e Josh O'Connor formam uma ótima dupla e conseguem traduzir toda a tensão e certa inocência aos personagens que estão tentando se entender no novo mundo que está se apresentando. Colman Domingo e Colin Firth protagonizam cenas maravilhosas em uma espécie de bem contra o mal. O humor se faz muito presente nos diálogos e nas ações dos personagens, e Wyatt Russell coroa essa risada em meio a tanto mistério.


O filme parece fazer o papel de prenúncio para o que pode acontecer, seja na nossa realidade ou na ficção. Gosto que a dúvida e mistério, que permeia o filme, se mantêm até o final fazendo a gente questionar tantas coisas. A busca pela verdade, mesmo que seja difícil de lidar, vai continuar guiando o ser humano, que muitas vezes não estará preparado para as respostas.


Veredito: 4/5

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