'A Odisseia' de Nolan e o peso de ser humano em meio a deuses
- Mikhaela Araújo

- 22 de jul.
- 11 min de leitura
Christopher Nolan encontra na adaptação de Homero um equilíbrio interessante entre a fantasia e a realidade sóbria e materialista

Quem diria que um dos filmes mais empolgantes da carreira de Christopher Nolan fosse ser, justamente, sobre uma história cheia de fantasia e elementos sobrenaturais baseada em uma das principais epopeias da mitologia grega? Bom, eu certamente não diria. Mas, engoli meus preconceitos filmísticos a seco quando saí da sessão de A Odisseia (2026), novo filme de um dos diretores que mais divide opiniões por aí.
É meio de conhecimento geral que o calcanhar de Aquiles de Nolan é a sua obsessão em tornar tudo muito Real, com uma visão quase apática e impessoal do que é a "realidade". Na sua trilogia de Batman, principalmente em Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012), esse é um dos principais problemas. Ali, Nolan tenta excessivamente transformar um herói de quadrinhos e desenhos animados num quase soldado militar sem emoção nenhuma, o que não funciona e só deixa tudo meio cafona no pior dos sentidos.
Com o público amando ou odiando, faz parte da identidade deste cineasta tentar trazer mais "realidade" nas suas histórias e não faria sentido ele fugir completamente disso depois de tantos anos de carreira. Mas, em A Odisseia, Nolan parece ter finalmente encontrado um certo equilíbrio. O filme não foge de vários elementos nada realistas, mas, ao mesmo tempo, os mantém realistas "o suficiente" para fazer as gerações do século XXI se conectarem com um poema escrito no final do século VIII antes de Cristo.
Nolan traz para sua interpretação do épico de Homero uma visão que não é nova na sua filmografia: a facilidade que nós humanos temos em fazer coisas grandiosas e inteligentíssimas, mas que, ao mesmo tempo, possuem consequências devastadoras e um poder destrutivo imenso. É impossível não lembrar de Oppenheimer (2023), último filme do diretor. A inteligência do cientista o fez criar uma arma extremamente letal e o obrigou a lidar com as pesadas consequências da sua própria criação; enquanto a esperteza de Ulisses (Matt Damon) o fez quebrar uma das leis mais sagradas de Zeus - por sinal, a repetição dessas palavras no filme chega a ser cansativa. Nolan não largou mão dos diálogos expositivos desnecessários -, causando uma devastação em que ele não tem controle e o castigando a não só passar anos longe do seu lar, mas também a lidar com o peso das suas próprias artimanhas, tão glorificadas pelos seus parceiros de guerra.

Aparece aqui um tema recorrente nos filmes do diretor, que é a nossa relação com o tempo, com a memória e com a falta de controle que temos sobre tantas coisas, como meros humanos. Temos vários exemplos para trazer aqui, desde Amnésia (2000), até A Origem (2010) e Interestelar (2014).
São dez anos resumidos em três horas da grande jornada de Ulisses para tentar retornar a Ítaca, sua casa, seu reinado, onde deixou seu povo, sua esposa Penélope (Anne Hathaway) e seu filho Telêmaco (Tom Holland), que ainda era um bebê quando o pai partiu.
[Atenção aos SPOILERS! De uma história de quase três mil anos rs]
"Um rosto. Uma frota. Uma guerra. Um homem. Um pensamento. Um truque."

Depois de uma década lutando na Guerra de Troia, vencida pela brilhante ideia de Ulisses de se aproveitar da confiança de um povo e da fé aos seus deuses, dando um cavalo de madeira gigante como oferenda a Atena e oferta de paz que, na verdade, escondia soldados gregos prontos para derrubar os portões de Troia e destruir completamente a cidade, o nosso querido (ou nem tanto) herói reúne seus homens para, finalmente, voltar para casa.
Mas, uma atitude como a tomada por Ulisses não passa em branco para os contraditórios mas irredutíveis deuses gregos, que decidem punir todos os que estavam envolvidos na armadilha. Como se não bastasse, o orgulho e arrogância do protagonista fazem despertar ainda mais a ira dos deuses após ele cometer algo completamente desnecessário e injusto com Polifemo, um ciclope filho de Poseidon com quem Ulisses e seus homens se deparam ao atracar os seus barcos numa ilha para procurar mantimentos.
A sequência é uma das partes mais interessantes do longa, com várias referências cinematográficas ao cinema de horror, desde o contraste entre luz e sombra até aos cortes do que é mostrado ou não a nós, telespectadores. O escuro da caverna contribui para nos sentirmos como um dos soldados de Ulisses, perdidos, sem saber claramente com o que ou quem estão lidando. Mérito do grande Hoyte van Hoytema, responsável pela fotografia dos filmes de Nolan desde Interestelar.

Mais duas grandes cenas de A Odisseia demonstram que o cineasta bebeu de forma bastante positiva dos filmes de horror. A primeira se passa na ilha de Circe, uma das mais inteligentes feiticeiras da mitologia grega, interpretada brilhantemente por Samantha Morton, que praticamente rouba o filme para si nos poucos minutos em que aparece. A tensão e o desconforto que sentimos é absurda e ao mesmo tempo conseguimos nos conectar profundamente com a personagem - principalmente se você também for uma mulher. Ser "visitada" por um grupo de homens, soldados, famintos e com saudade de suas casas enquanto você está sozinha faria qualquer mulher ter vontade de transformar todos em porcos.
A segunda é a sequência no território de Hades, quando Ulisses se encontra com os espíritos dos mortos na Guerra de Troia. Lá, ele tem uma conversa particularmente especial com Sinon, o soldado que foi enganado pelos outros homens e por Ulisses e ficou responsável por entregar o cavalo de madeira aos troianos, fielmente acreditando que se tratava de uma oferta de paz. Sinon é vivido de forma excelente por Elliot Page, que consegue nos entregar uma atuação transbordante de ressentimento e mágoa ao conversar com seu antigo comandante, mesmo com uma participação tão rápida, como a de Norton. A partir deste momento, A Odisseia entra de cabeça no sentimento de arrependimento e responsabilidade que Ulisses está lidando e as próximas horas parecem ficar cada vez mais pesadas, nos deixando mais e mais imersos na mente agonizante do herói.

Como a seleção de atores é um grande trunfo de Nolan há anos, o destaque para o elenco não para por aí. Uma outra atuação coadjuvante que merece atenção é a de Robert Pattinson que, honestamente, vem trilhando uma filmografia brilhante e única nos últimos anos. Ele interpreta o detestável, covarde, ardiloso e traiçoeiro Antínoo, um dos vários pretendentes que ocupam o salão da casa de Ulisses em Ítaca como urubus, à espreita de uma demonstração de fraqueza de Penélope, procurando uma chance para casar com ela e tomar o trono para si. A forma com que Pattinson entrega os diálogos, mesmo os bregas (que são muitos, rs), enchendo a boca para soltar as palavras e trabalhando suas expressões muito bem, nos faz realmente nutrir um ranço absurdo pelo personagem.

E falando em Penélope, Anne Hathaway nos deu uma das melhores atuações de sua carreira, em seu terceiro trabalho com o diretor. Nolan conseguiu, finalmente, trazer mulheres mais complexas aqui, o que com certeza é facilitado pelas nuances das próprias personagens originais - Helena de Troia é tão ambígua e icônica que inspirou uma geração de Helenas do Maneco, afinal. Isso é impresso na esposa de Ulisses e, como ela mesma diz durante o filme, rainha de Ítaca, mesmo sem um rei ao seu lado. São duas décadas sozinha, cuidando da política, protegida e separada dos pretendentes urubus que habitam seu palácio apenas por uma porta de madeira. Mesmo "trancafiada", a Penélope de Hathaway se recusa a ocupar o papel de mulher abandonada e fraca, reforçando diversas vezes que é ela que ainda mantém Ítaca "de pé", mesmo numa sociedade tão misógina e patriarcal quanto a que A Odisseia se passa.
Porém, a excelente atuação de Hathaway acaba evidenciando uma das fraquezas do filme: Tom Holland, que interpreta o filho de Penélope e Ulisses, Telêmaco. Apesar de funcionar de forma aceitável para o papel, é absurdamente discrepante o nível de entrega do jovem ator para a experiente Anne.

O fato do filme ser o primeiro inteiramente filmado em IMAX tem suas desvantagens, principalmente quando se trata de cenas com muito diálogo. Não há muito tempo disponível para gravar nos equipamentos, absurdamente pesados e caros e, em muitas cenas, eles precisaram gravar com espelhos; há pouca familiaridade dos atores com este modelo de filmagem e isso fica visível. A montagem de Jennifer Lame, principalmente na primeira parte do filme, deixa isso ainda mais evidente de forma incômoda, com trocas de foco estranhas e cortes rápidos demais, que deixam tudo meio confuso até o filme realmente engatar seu ritmo.
Voltando para as atuações menores em tempo de tela mas grandiosas em qualidade, destaco a belíssima e imponente Lupita Nyong'o, que tem mesmo um rosto pelo qual guerras poderiam ser travadas em seu nome. Suas duas personagens, as irmãs Helena e Clytemnestra, são um vislumbre. Outros nomes que estão muito bons: John Leguizamo como o leal Eumeu, Himesh Patel como Euríloco e Jon Bernthal como Menelau.

Zendaya, um dos maiores destaques nas premières do filme ao redor do mundo por seus looks bafônicos e um face card insano, infelizmente não tem seu potencial tão explorado. Assistir à última temporada de Euphoria e aos longas O Drama e Challengers nos mostrou que a atriz tem, sim, habilidade, mas, como a deusa Atena, suas aparições mais se assemelham ao cômico enredo do Doakes observando Dexter na clássica série do serial killer. Ademais, a cena em que nos é revelado o motivo da deusa da sabedoria aparecer com essa aparência para Ulisses é, definitivamente, um dos momentos do filme que mais fazem prender a respiração - ou, como dizemos nós, jovens, deixa todo mundo GAG.

Com o porém da montagem não me agradar tanto, principalmente no início, é interessante como as trocas entre as cenas de Ulisses preso na ilha de Calypso - não, não é a paraense -, vivida por Charlize Theron, com as cenas das batalhas travadas por Ulisses na sua longuíssima jornada para casa, alternando com o que está acontecendo no presente em Ítaca, fazem com que tudo pareça um grande sonho (ou pesadelo) febril. O que faz muito sentido, considerando que Ulisses, um prisioneiro, está sendo literalmente dopado por anos por Calypso ao comer várias flores de lótus incessantemente - na mitologia grega, elas funcionam como um alucinógeno que te deixa em estado pacífico de sonho e, ao mesmo tempo, provoca esquecimento. Lembra do que falei sobre memória e tempo? Pois é.
"Era uma música sobre todas as promessas que eu falhei em cumprir."

Mesmo com a sobriedade dos filmes de Nolan sendo um dos principais motivos de afastamento para quem desgosta do diretor, é curioso ver como ele a coloca aqui, de forma diferente de outros longas, mas ainda presente. Mesmo nos momentos mais sobrenaturais, a materialidade ainda existe, mas existe por um motivo importante: Nolan quer falar sobre a humanidade mais do que falar sobre os deuses. Apesar de ainda mantê-los na essência da história, o diretor reforça bastante o peso da responsabilidade dos humanos e das nossas decisões. Temos livre arbítrio, afinal. Mas, quais as consequências dele? Qual o legado do Cavalo de Troia, uma manobra que venceu a guerra e trouxe uma suposta glória políticia a Ulisses e aos gregos, mas uma devastação brutal para outros povos?
Quando seus soldados se deparam com os gigantes Lestrigões, estes são representados como soldados sem rosto, vestidos de armaduras "futuristas" se comparadas às da Idade do Bronze. Não seria essa a forma que os povos que os gregos saqueavam e estupravam os viam? É o medo do colonizador de virar o colonizado?
A "verdadeira" experiência?
Enfim. Eu sei, esse texto está ficando muito grande, principalmente na era em que assistir a vídeos em 2x ainda é lento demais e ler mais que a quantidade de caracteres de um tweet é cansativo. Mas, não posso deixar de falar sobre um dos pontos mais comentados no mundo das internets desde antes do lançamento de A Odisseia: a forma.
Para além dos seus pontos mais elogiados como os efeitos práticos, o cuidado com as locações, a textura, a trilha, os cenários, os objetos, os planos filmados sem telas verdes e sem CGIs "porcos" - me dêem o direito de fazer essa piada com a cena perturbadora e BEM FEITA de Circe -, que são pontos positivos gritantes já que afastam completamente a preguiça que tomou conta de muitos dos blockbusters atuais (oi, Marvel), o longa tem outros detalhes de formato que se sobressaíram nas discussões e foram odiados por muita gente.

É o primeiro filme da história a ser filmado completamente em IMAX, em 70mm. E, como você que está lendo aí provavelmente já deve ter visto, apenas 40 salas de cinema no mundo inteiro conseguem reproduzir o longa como ele foi projetado para ser reproduzido, como ele foi pensado e gravado originalmente. Imagens cortadas de forma exagerada e falsa (não, a cabeça do Tom Holland não foi cortada na testa, tá?) estão rodando há semanas nas redes sociais como se o filme, ao ser exibido em outras telas de outros formatos, perdesse completamente o sentido e não valesse a pena ser visto.
Quase como se toda a equipe envolvida, desde Nolan até os projecionistas que estão exibindo hoje, tivessem simplesmente esquecido dos mais de 25 mil cinemas ao redor do globo que não vão poder exibir o filme no formato IMAX 70mm. Imagina.

É engraçado observar a ingenuidade, para não colocar como desonestidade, dos comentários que condenam um cineasta por fazer uma obra da forma que mais lhe agrada artisticamente. E não só artisticamente, já que, não sendo eu a ingênua, há obviamente um acordo financeiro e publicitário entre Nolan a marca IMAX. Mas, qual é exatamente o grande problema nisso? Ou esquecemos que não é a primeira vez que um filme não pode ser exibido em todos os lugares no seu formato original? (Leiam este texto, por sinal!)
Não preciso mentir aqui. É frustrante, sim, não ter como assistir a um filme ou consumir uma obra da forma que seu criador pensou em sua origem. Mas, não dá para simplesmente ignorar que Christopher Nolan, que está longe de ser um dos meus cineastas favoritos, é um dos únicos que já falou abertamente sobre não ver problema em seus longas serem assistidos até mesmo em telas de smartphones. Sabemos que pode não ser a mesma experiência, mas ela não deixa de ser uma experiência extremamente válida. Resumindo: não existe forma "correta" de assistir; existe a forma que foi pensado e feito e existem as várias formas de consumir uma obra, desde que o sentido e a essência sejam transmitidos.
Não assiti e não assistirei A Odisseia em IMAX 70mm, assim como milhares de outras pessoas não vão. Até quem tem uma sala dessas a poucos km, já que, como exemplo, o filme está com sessões esgotadas até setembro no BFI em Londres!
E já puxando desse gancho... ame ou odeie, é admirável a capacidade de Nolan em transformar seus lançamentos de filmes em experiências quase teatrais. Ele tem uma capacidade gigantesca de levar as pessoas ao cinema, de trazer a experiência do Cinema para o centro. Aqui em Recife, está difícil encontrar ingressos para assistir ao novo longa, principalmente na única sala IMAX (que não é 70mm!); na França, como comentou Kleber Mendonça Filho, tem pessoas pegando trem para chegar em Montpellier, onde o filme está passando em IMAX 70mm. Como não achar isso incrível numa era em que se tornou comum e normal assistir filmes por cortes do TikTok? Me chamem de purista, mas eu nunca vou preferir divulgar obras cinematográficas por cortes acelerados de segundos divididos em 100 partes do que tentar democratizar cada vez mais o acesso a salas de cinema com a melhor qualidade de imagem e som possíveis. Poxa, não poder ver um filme em IMAX 70mm... vamos falar de problemas reais? Tem cidades que sequer possuem um cinema. Não vamos colocar o carro na frente dos bois, galera.

Enfim. Voltando ao épico grego de Nolan, que vale a pena ser visto em qualquer forma que seja, A Odisseia (2026) é uma adaptação coerente com o diretor, num momento mais maduro e equilibrado da sua carreira. Respeita a obra original sem replicá-la completamente, trazendo sua própria identidade e reforçando, por mais um filme consecutivo, um importante discurso anti-guerra num período sociopolítico em que várias estão acontecendo e já deixando incontáveis rastros de destruição.
P.S.: Ainda bem que, há muitos anos, depois de passar por uma fase em que a minha obsessão por literatura fazia com que eu achasse que nenhum filme seria "melhor" que o livro, eu abandonei esse pensamento. Seria muito limitante querer que uma adaptação para o cinema seja igual à obra original escrita. Qual a graça de criar assim?
Veredito: 8,5/10














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