“Nosso Segredo” emociona ao propor viagem surrealista e reflexiva sobre o luto
- Rayane Domingos

- há 2 horas
- 6 min de leitura
O filme de estreia de Grace Passô utiliza o lúdico para cutucar os nossos dilemas sobre a vida

O filme mal tinha começado quando o personagem de Mateus Aleluia, em presença gigantesca, faz duas perguntas teoricamente despretensiosas a Gilson (Robert Frank): “O que você tem esquecido no meio da rua? O que você tem largado na faixa de pedestre?”. As reflexões dão o tom inicial para uma série de outras que virão em "Nosso Segredo", longa-metragem de estreia da atriz e diretora Grace Passô.
O filme conta a história de uma família negra, naquela formação clássica de muitos parentes morando na mesma casa, que está tentando se reconstruir após uma perda inesperada e devastadora. Cada um tenta fugir desse luto à sua maneira, e a maioria ignorando completamente a partida da grande referência do lar. O filho caçula, que sofre de problemas de saúde, guarda um segredo capaz de encarar as raízes de suas dores. E juntos, todos descobrem uma nova maneira de levar a vida.
O roteiro do filme, escrito por Grace Passô, é uma adaptação de uma peça de teatro escrita por ela mesma, em 2005. Em conversas recentes, a diretora revelou que fez mudanças diversas especialmente para o longa, como no título da produção e em outros detalhes na condução da história. O fato é que independentemente do palco que é mostrado, é quase impossível não se emocionar nessa viagem surrealista sobre o luto e o anseio de seguir em frente.
"A vida é tão difícil"*

"Nosso Segredo" começa despretensiosamente com um idoso sendo levado para casa por um motorista de carro de aplicativo, que aproveita para engatar uma conversa reflexiva sobre trabalho com o senhor, que lhe dá um CD com uma coletânea. Ao retornar para casa cansado, ele se dá conta de um lar tenso e desajeitado, com uma lâmpada que não funciona e uma caixa de som que não permite diminuir o volume. Demora, mas ele consegue "consertar" esses problemas cotidianos.
O filme vive uma grande dualidade entre o silêncio, o vazio, a falta de diálogo, com o barulho tremendo, da música alta, de uma festa, da vizinhança, da própria casa, que é esse organismo vivo que vai ajudando a contar parte da história dessa família que está vivendo em piloto automático, repetindo as mesmas ações mergulhando em um limbo.
Quem não leu a sinopse pode demorar a entender o fio narrativo, isso porque só é citado algo relacionado ao luto quase 30 minutos depois do início do filme. Até lá, tudo fica no campo da imaginação, cogitar cenários, tentar compreender porque tudo ali é tão estranho, silencioso e sem diálogo. Criar esse ambiente cheio de vazio é angustiante e dá um pouco da dimensão do que cada um ali está sentindo, ou pelo menos tentando esconder que sente.
Para montar esse quebra-cabeça é preciso compreender as situações que vão acontecendo aos poucos. A filha que passa o dia inteiro com o fone de ouvido e sente dificuldade de chorar, o namorado dela que só entendeu o que era ser bonito e amado após encontrá-la, o filho mais velho se afundando no trabalho, o outro jovem sem conseguir admitir o afeto que sente por todos ali, a mãe ouvindo um áudio do pai que se foi, a tia tentando organizar a vida, o filho caçula ainda tentando entender o que aconteceu recentemente. E tudo isso dentro de uma casa, como dito anteriormente, um organismo vivo e que está sofrendo com falta de manutenção, se deteriorando aos poucos, quase expulsando os moradores dali.

Tudo isso, e muito mais que não vale adiantar para não dar spoiler, envolto do luto, da maneira torta que ainda não sabemos lidar com essa ausência de uma pessoa que era tão presente há dias atrás. Como superar isso? Como seguir em frente, saudável e lúcido, depois disso tudo? Grace Passô refletiu sobre esse momento e disse que existe uma grande dificuldade das pessoas, sobretudo de negros e pobres, lidarem com esse problema:
“Eu consegui localizar o cerne dessa história sobre o luto em muitas coisas que não entendia, como o luto que vivi na minha própria família. E só então fui entender sobre essa dificuldade de decantar o luto, que depende muito do tempo que você tem para pensar em si. E em uma família de trabalhadores não existe esse tempo. Muitas coisas do luto parecem existenciais, mas não é só isso. A vida vai seguindo e você precisa acordar no outro dia para trabalhar. Isso está intimamente ligado à vida social, e as pessoas periféricas não tem esse tempo para processar sobre isso”, disse a diretora.
"O mundo é muito errado"*
Como dito anteriormente, acredito que um dos grandes trunfos do filme é ter pouco diálogo pelo menos em boa parte. Muitas vezes os personagens soltam frases ou reflexões que nem mesmo trinta páginas de roteiro poderiam dizer. E a maioria dessas pérolas são ditas pelo pequeno Tutu (Efraim Santos), o filho caçula que sabe exatamente o que está acontecendo, mas que a família prefere não falar explicitamente por não saber a melhor abordagem. Enquanto assistia, anotei no papel "criança impossível de linda" para me referir ao personagem que está em todos os lugares tentando se comunicar com os familiares, seja para explicar o inexplicável ou para entender aquela dinâmica.

É pelos olhos dele que outro grande elemento é introduzido pelo filme: o surrealismo ou realismo fantástico, tanto faz. O fato é que o lúdico se faz presente a todo tempo, mas a gente não consegue perceber porque nessa viagem ainda estamos presos no que é físico, nessa realidade cruel. Tutu ajuda a conduzir a história a partir de então, tentando compreender aquela dor que sente por outro viés e convidando os outros parentes a embarcarem também.
O roteiro não se isenta nem fica preso nessa coisa metafórica e surrealista que conduz boa parte da trama. Quando você menos espera a realidade cruel se impõe. O racismo e esse estigma que pessoas negras ainda carregam dos seus antepassados, mesmo com o passar dos tempos, é tratado com a seriedade e denúncia necessária para a gente refletir sobre como as coisas realmente são, seja aqui ou acolá.
Talvez o único problema seja o tom arrastado em alguns momentos quando o silêncio toma conta e parece que nada importante para a narrativa está acontecendo. Mas a virada não tarda a chegar e a montanha-russa de emoções volta a andar normalmente.
A câmera capta todas as emoções presentes, inclusive as que não estão aparentes, seguindo os passos de cada um tentando desvendar esse mistério que envolve todos, não de uma forma perseguidora, mas sim atenciosa. A sequência final é bem retratada e só ajuda que mais interrogações surjam em nossas cabeças. Importante destacar o ótimo trabalho de fotografia, principalmente no que se refere diretamente a casa, e tudo que abarca o som do filme. A trilha sonora de Amaro Freitas ajuda a dar todo o tom do filme, a tensão, a angustia, a felicidade mínima, a confusão, enfim. Todos os nossos sentimentos conseguem ser embalados pelas belíssimas canções.

E para tudo isso acontecer é preciso de um trabalho primoroso do elenco, que realmente dá um show a parte. Mesmo pequeno, Efraim se mostra gigante nas telonas, seja no silêncio ou falando pequenas frases de impacto. De fato, como disse Grace, é impossível não se encantar pelo ator e o seu trabalho. Além dele, todos os outros abrilhantam o filme como Ju Colombo, Flip, Jéssica Gaspar (cena final é arrebatadora), Marisa Revert e Robert Frank.
Acompanhando Grace Passô durante a pré-estreia no Cinema da Fundação, no Recife, pude ver toda a sala do cinema parada enquanto os créditos subiam na tela. Com um grande silêncio após a sessão, ela olhou a sala escura e viu ninguém se mexer. Só consegui dizer: "esse é o impacto do seu trabalho". Ela sorriu um pouco tímida e só concordou com a cabeça. Eu não assisti ao filme naquele momento, infelizmente só pude conferir no sofá da sala. E quando findou, me teletransportei para aquele momento em que o silêncio reinou, e me vi igual a todos os outros. Talvez não me recupere da porrada que tomei. E tudo bem. Agora é seguir em frente.
Veredito: 4,5/5
(*) No subtítulo estão as frases ditas por Tutu ao longo do filme.














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