top of page

“Feito Pipa” emociona pela delicadeza ao retratar história sobre a infância queer negra

Foto do escritor: Rayane Domingos
Rayane Domingos
há 2 horas
6 min de leitura

O novo filme de Allan Deberton foi escolhido como representante do Brasil na corrida por indicação ao Oscar


Yuri Gomes interpreta Gugu em Feito Pipa. Foto: Jamille Queiroz
Yuri Gomes interpreta Gugu em Feito Pipa. Foto: Jamille Queiroz

Discutir e compreender a infância e suas particularidades é de certa forma algo muito recente para a sociedade, que por séculos negligenciou e reduziu as crianças a uma espécie de "formato mini dos seus progenitores". Um grande erro. Por isso, os estudos, legislações, políticas públicas voltadas para esse público ainda são recentes.


A situação fica ainda mais complicada quando falamos sobre crianças que fazem parte de minoria social, como especificamente os que de uma forma ou outra se entendem como parte da comunidade LGBTQIAPN+. Tudo o que cerne a infância queer ainda é tabu para uma parcela da população dita conservadora e que não tem intenção de realmente acolher, proteger e orientar as crianças a se entenderem e aceitarem.


A infância queer negra é o tema principal do enredo de Feito Pipa, novo filme do diretor cearense Allan Deberton que é estrelado por Yuri Gomes, Teca Pereira e Lázaro Ramos. O longa acompanha o pequeno Gugu, uma criança de 12 anos que sonha em ser jogador de futebol e vive com a avó, Dilma, sendo criado de forma livre. Quando ela começa a sofrer com os primeiros sintomas de Alzheimer, ele é obrigado a morar com o pai, com quem tem uma relação complicada e distante, e muito porque o homem é homofóbico e não consegue  aceitar a maneira que o filho é.


O filme foi escolhido para representar o Brasil na busca por indicação na categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar 2027. A produção do longa também submeteu o longa-metragem em sete categorias no Globo de Ouro, e estamos no aguardo para saber se ele entrará na lista de concorrentes.


O mundo de Gugu, o ideal


Teca Pereira e Yuri Gomes como Dilma e Gugu em Feito Pipa. Foto: Jamille Queiroz
Teca Pereira e Yuri Gomes como Dilma e Gugu em Feito Pipa. Foto: Jamille Queiroz

Feito Pipa retrata dois universos distantes e distintos. O do pequeno Gugu é colorido e sonhador, em que todo mundo é bonito, cheio de glitter e pode se expressar de forma livre sem nenhum tipo de amarra de uma masculinidade tóxica que corrói a cabeça das pessoas desde a infância.


O começo do filme chama a atenção pela maneira positiva que Gugu se comporta. Ele quer colocar estrelinhas coloridas no rosto, vestir o meião e participar de uma partida de futebol com os colegas. E esse é um dos pontos interessantes do filme: o protagonista não está no processo de descoberta ou dúvidas. Ele acumula certezas sobre o que gosta e o que quer ser. Quem tem problemas quanto a isso são os outros que não conseguem entender que ele é só mais uma criança que sonha e deseja conquistar o mundo.


E Gugu só consegue viver nesse mundo alternativo e ideal por conta da avó Dilma, que ficou responsável pela criação, após uma tragédia na família, e não vê problema na maneira que ele se comporta. A relação dos dois é o pilar principal do filme e muito bem retratado tanto pela delicadeza emocionante dessa nova configuração familiar, como também pela ótima atuação de Teca Pereira e Yuri Gomes. 


Apesar de sofrer com o bullying na escola dos colegas de classe, que são mais velhos e que sabem muito bem o que Gugu representa, a criança não se deixa abater pela crueldade que tenta adentrar em seu universo. Ele consegue viver bem, de certa maneira, e muito por conta dos seus dois fiéis escudeiros, Enzo e Kelly, que o ajudam a passar por momentos difíceis nessa jornada de vida que ainda está começando.


O diretor Allan Deberton retorna a mesma delicadeza do seu primeiro longa-metragem, Pacarrete, para retratar as dores e delícias vivenciadas por Gugu por ser uma criança negra e queer no interior do Ceará. A história vai sendo desenrolada aos poucos, sem grande pressa e dando destaque ao humor dos personagens, o silêncio e as paisagens dos lugares, em um bonito trabalho de fotografia. 


O mundo de Gugu também é muito musical, característica marcante dos trabalhos de Deberton. Canções antigas e atuais, que vai de Lady Zu a Pabllo Vittar, embalam as cenas e dão o tom ideal para reafirmar que trata-se de um filme sobre uma criança queer. 


Yuri Gomes interpreta Gugu em Feito Pipa. Foto: Jamille Queiroz
Yuri Gomes interpreta Gugu em Feito Pipa. Foto: Jamille Queiroz

O mundo real, o cruel


O mundo de Gugu é praticamente invadido diariamente com o universo do outro, em que tudo é proibido, trágico e muito cruel. Qualquer coisa que foge da dita normalidade é considerada errada e deve ser combatida de alguma maneira. A figura de Batista, o pai ausente, representa todo esse discurso retrógrado que ainda permeia toda a sociedade. 


Ele é um homem negro que dirige um caminhão-pipa e tenta recomeçar a vida com outra família após uma tragédia, o que acaba deixando Gugu de lado em inúmeros momentos. Mas o que realmente afasta os dois é a homofobia tão enraizada no pai que não permite ter uma relação genuína e saudável com o filho.


Quando há a separação do neto com a avó após uma piora no quadro de saúde, o filme deixa evidente o quanto Gugu deixou de habitar no seu próprio mundo para existir no do outro. A criança experimenta, talvez, pela primeira vez como é viver sem o gosto da vida ao se mudar para morar com o pai, que sufoca a sua personalidade e criatividade na maneira que se comporta e veste.


Lázaro Ramos e Yuri Gomes como Batista e Gugu em Feito Pipa.  Foto: Jamille Queiroz
Lázaro Ramos e Yuri Gomes como Batista e Gugu em Feito Pipa.  Foto: Jamille Queiroz

Enquanto assistia Feito Pipa me questionei a todo tempo o quão complexo é ser criança queer. Quantas angústias, dúvidas e medos assombram a cabeça e o coração de cada uma, sobretudo quando não se tem um adulto responsável que ajude a lidar com todas as questões que vão surgindo, seja falta de conhecimento de como auxiliar ou por negligência por puro preconceito. De fato, a escritora Lya Luft está correta quando diz que: "A infância é um chão que pisamos a vida inteira". 


O mundo que queremos, o único possível


Não é um equívoco dizer que a legislação que trata a proteção das crianças e adolescentes é algo muito recente no Brasil. O assunto apareceu na Constituição Federal, de 1988, no artigo 227 em que se reconhece o grupo como sujeito de direito. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), em que ajudou a regulamentar esses direitos, só foi promulgado dois anos depois, em 1990. 


As crianças e adolescentes no Brasil são protegidos por uma lei apenas há 36 anos. É muito provável que seus pais não foram contemplados com os direitos que surgiram a partir da legislação, que é considerada um grande modelo para o mundo, apesar de muitas lacunas importantes que precisam ser tratadas.


Trago para o texto essas informações, já tão debatidas por todos, com o único objetivo de reforçar que a sociedade como um todo ainda está em débito com a responsabilidade na formação das crianças e adolescentes do Brasil. É preciso refletir e debater cada dia mais sobre a infância queer e as maneiras de auxiliar os pequenos a se entenderem e aceitarem desde cedo para evitar que viva em um mundo que não lhe cabe. E muito além disso, é necessário educar as crianças e punir os adultos que tentam cercear de alguma maneira a maneira livre do outro viver.


Yuri Gomes interpreta Gugu em Feito Pipa. Foto: Jamille Queiroz
Yuri Gomes interpreta Gugu em Feito Pipa. Foto: Jamille Queiroz

Confesso que me empolgo um pouco ao falar sobre o assunto porque de fato sou o meme da Inês Brasil aos berros dizendo "não se mexe com criança não, pela criança eu dou minha vida". A maneira que Deberton conseguiu conduzir o filme é emocionante e nos faz refletir sobre tantas questões vividas na infância e joga uma grande luz a outros tipos de vivências.


Enquanto os créditos subiam na tela, dois pensamentos vieram a cabeça. O imenso desejo que outras crianças negras e queers estejam vivendo livres por aí, ou que encontrem a liberdade em breve, sempre mantendo a ternura. E o outro foi quem dera todo jogador de futebol no Brasil fosse igual a Gugu: cheio de personalidade e vontade de fazer gols. A gente já teria conquistado o mundo novamente.


Veredito: 4,5/5

Comentários


Últimos textos

bottom of page