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‘Os Arcos Dourados de Olinda’ e a fome pela narrativa 

Foto do escritor: Samantha Oliveira
Samantha Oliveira
há 9 minutos
6 min de leitura
'Os Arcos Dourado de Olinda' será exibido pela primeira vez em Olinda neste sábado (19)
'Os Arcos Dourado de Olinda' será exibido pela primeira vez em Olinda neste sábado (19)

Longa será exibido pela primeira vez em Olinda, ao mesmo tempo que se qualifica para disputar a indicação de 'Melhor Curta- Metragem' no Oscar


No jornalismo, aprendemos que a forma de contar uma história nunca será a mesma. As variáveis são muitas, que vão desde a abordagem do contexto às subjetividades de quem conta. No cinema, esse recorte da realidade é feito de forma ainda mais intencional, influenciável e, principalmente, imparcial. 


Em 'Os Arcos Dourados de Olinda', a narrativa é o principal - e talvez único - recurso de Douglas Henrique, diretor e idealizador do curta-metragem que tem conquistado não só os bairristas do cenário do filme, como um público multicontinental. 


Até então, a ideia do curta chegou até mim como uma obra sobre o primeiro McDonalds a falir em Olinda. Simples assim, direto e curioso. O que não esperava é que justamente a forma de contar essa história poderia trazer reflexões sobre memória, ironia e a megalomania pernambucana”, declara o cineasta, em entrevista à TAG


Passo 1: escolha seu lanche


As escolhas tomadas por Douglas ao longo da narrativa destacam, acima de tudo, a forma com a qual o diretor quis contar a história. Nos primeiros quatro minutos, Arcos conta uma história de globalização, Guerra Fria e contextos globais que nos ajudam a chegar na melhor cidade do mundo, como assim é descrita: Olinda. O processo de pesquisa e, principalmente, arquivo, ficam evidentes a partir do momento em que o público — sendo ou não de Pernambuco — é imerso no universo das ladeiras e politicagem da época. "O filme dependia do arquivo, já que eu me propus a gastar todo o dinheiro com o arquivo e não filmar nada. Então, eu fiz uma aposta completa que ninguém me recomendava", explica. 


As imagens, por si só, podem sim dizer muito, mas é a atmosfera de Arcos que capta qualquer um que tenha vivido a efemeridade dos anos 2000. A sensação é de acessar um fórum, abrir o MSN ou entrar naquela comunidade do Orkut enquanto vê as imagens de uma cidade que não existe mais — assim como qualquer pedaço recortado da história.


Como toda lembrança, porém, os arquivos e o resgate da memória passaram por um esquecimento literal ao longo dos anos em Olinda e no Estado. O recurso de imagens não se torna escasso, mas corre o risco de ser deletado — nesse caso, destruído — sem políticas públicas específicas.


Desta forma, Arcos acaba por se posicionar ele mesmo como um arquivo da cidade do cineasta e um recorte da sua história: o conflito global entre comunismo x capitalismo, ilustrado por uma disputa política pela prefeitura de Olinda, encabeçada por Luciana Santos e Jacilda Urquisa. "Eu sabia que era um filme sobre o McDonald's e sobre Luciana [Santos], e eles eram um símbolo dessa esquerda e dessa direita em uma 'guerra fria' sobre a dominância dessa cidade que é Olinda, que é a cidade mais importante do mundo. Já era essa mistura dos símbolos com a megalomania pernambucana e a ironia de tudo”, justifica Douglas Henrique.


Vai ter molho?

Curta une megalomania pernambuca, os males do capitalismo e a disputa política em Olinda
Curta une megalomania pernambuca, os males do capitalismo e a disputa política em Olinda

Em outro conceito da comunicação, é essencial que a mensagem seja clara e entregue a informação ao destinatário. Para além disso, usar certos recursos de linguagem, me como a ironia, também exigem alguns fatores como contexto e entendimento entre ambas as partes.


Ainda assim, como contar uma história (que poderia muito bem ser descrita como) regional e, ao mesmo tempo, fazer rir sobre ela? Em Arcos, a ironia é um personagem à parte, entoada de forma magistral pelo narrador da história, Giordano Castro. Para mim, que não cresci em Olinda, mas estive por perto, a risada veio de forma natural, esperada. No entanto, não deixei de me perguntar o que motivaria o riso e a descontração de alguém que assiste de outro continente, criado sob diferentes culturas, contextos e, principalmente, senso de humor.


Douglas me explica que a intenção sempre foi ser engraçado. Afinal, o fato de Olinda ter sido a primeira cidade do mundo a falir o McDonald's desperta o riso de descrença, o sorriso de bairrismo ou a risada de tamanha aleatoriedade desse "fato".


"Queria explorar essa vertente, não a seriedade da política ou as dificuldades da cidade de uma forma crítica social tradicional. Acho que isso tem que estar, mas tem que ter uma capa de 'pop' para o filme, que queira alcançar as pessoas", explica o cineasta.


É interessante a preocupação em trazer o debate para o acessível, o engraçado, ao mesmo tempo em que se joga luz a uma discussão antiga da modernidade: a briga do capitalismo yankee versus o fantasma do comunismo da URSS. O diretor defende ainda que obras como Arcos levantam pautas que deveriam ser conversadas no dia a dia.


Afinal, política é ordinário. "Não é uma questão de substituir [o debate sério], com certeza não, acho que o debate político tem que ser realmente sério. Mas a gente perdeu essa questão que é tratar a política como uma coisa do nosso dia a dia mesmo. A gente cresceu com esse papo de que política não se discute", complementa.


Hambúrguer sabor pernambuquês: é pra comer no local!


Não é de hoje que o cinema e a megalomania pernambucana caminham juntos. Nos últimos anos, no entanto, a sensação é de que a vontade de falar de si ultrapassou a linha narrativa e agora se torna algo mais próximo a um subgênero.


Este universo de apresentar elementos de Pernambuco para o mundo requer, como toda história bem contada, contextualizações e o olhar do porquê aquilo é importante. Em Arcos, o macro da rede de fast food é o ponto de partida — mas que, em vez de seguir a lógica tradicional para um micro, volta-se para outro superlativo: a cidade de Olinda.

Douglas Henrique destaca o processo de pesquisa e memória durante a produção do curta
Douglas Henrique destaca o processo de pesquisa e memória durante a produção do curta

"Todo mundo sabe o que é o McDonald's, da Coreia do Norte até a Venezuela. Mas

ninguém sabe o que é Olinda fora daqui. Gastamos os 4 minutos iniciais do filme para mostrar o mundo inteiro se modulando até chegar no lugar mais importante do mundo, que é Olinda. As pessoas têm que primeiro entender qual é a importância de Olinda para aí elas virem com a gente", afirma Douglas.


No entanto, entender a importância

desse espaço e do universo pernambucano/olindense é também entender suas problemáticas e suas demandas. Ao mesmo tempo que a cidade é protagonista do premiado curta, suas ruas e o seu cinema continuam enfrentando problemáticas, falta de políticas de incentivo e todos os cenários já conhecidos pelo mundo das artes e audiovisual.


Em paredes concretas, esse exemplo se solidifica no Cine Olinda, que soma anos de abandono e eternas promessas de revitalização. Exatamente por isso, a exibição do filme no local neste sábado (19), às 18h, carrega um peso poético e político único.


"É a sessão mais importante do filme até agora. O filme é sobre a política de Olinda e a gente vê todo esse descaso com os espaços públicos. Completa dez anos da ocupação do Cine Olinda e nada avançou de verdade. Estar nesse espaço, ajudando a puxar público e impulsionar essa mobilização, é estar em uma causa que a gente acredita demais", pontua Douglas.

Preservar o arquivo, a história e os espaços físicos do audiovisual não é um mero capricho nostálgico, mas um ato de legítima defesa da nossa identidade. Afinal, se não cuidarmos dos palcos onde nossas narrativas ganham vida e das gavetas onde nossas lembranças são guardadas, corremos o risco de ver nossa própria história virar um mito distante, tão efêmero quanto o sabor de um sanduíche de fast food.


Brinde especial


Se a recepção local se traduz na força da ocupação comunitária, no cenário global a caminhada de 'Os Arcos Dourados de Olinda' tem sido vertiginosa. Em menos de um ano, o curta soma 70 seleções em festivais e 50 prêmios ao redor do globo, com passagens confirmadas pelo Festival de Biarritz, na França, e por festivais na Bélgica nas próximas semanas.


A coroação desse fenômeno orgânico veio neste mês, com a confirmação de que o curta está oficialmente qualificado para concorrer a uma vaga no Oscar. Um feito raro para uma produção independente, realizada praticamente sem orçamento e sustentada no engajamento boca a boca de público e crítica.


"Qualificamos o filme em abril e recebemos a confirmação do Oscar agora no começo do mês. É um caso bem raro de curta brasileiro que teve uma adesão tão grande e natural. Nosso objetivo agora é fazer o filme rodar muito, ter mais sessões e ver a resposta das pessoas no Brasil", comemora o diretor, que encara a disputa na Academia com o mesmo humor característico do filme. "Estamos em um mar de cerca de 60 filmes disputando para chegar nos 15 pré-selecionados. Quem sabe a gente não chega lá a partir do desejo e do barulho da galera de Pernambuco e do Brasil?".


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