‘Os Arcos Dourados de Olinda’ e a fome pela narrativa


Longa será exibido pela primeira vez em Olinda, ao mesmo tempo que se qualifica para disputar a indicação de 'Melhor Curta- Metragem' no Oscar
No jornalismo, aprendemos que a forma de contar uma história nunca será a mesma. As variáveis são muitas, que vão desde a abordagem do contexto às subjetividades de quem conta. No cinema, esse recorte da realidade é feito de forma ainda mais intencional, influenciável e, principalmente, imparcial.
Em 'Os Arcos Dourados de Olinda', a narrativa é o principal - e talvez único - recurso de Douglas Henrique, diretor e idealizador do curta-metragem que tem conquistado não só os bairristas do cenário do filme, como um público multicontinental.
“Até então, a ideia do curta chegou até mim como uma obra sobre o primeiro McDonalds a falir em Olinda. Simples assim, direto e curioso. O que não esperava é que justamente a forma de contar essa história poderia trazer reflexões sobre memória, ironia e a megalomania pernambucana”, declara o cineasta, em entrevista à TAG.
Passo 1: escolha seu lanche
As escolhas tomadas por Douglas ao longo da narrativa destacam, acima de tudo, a forma com a qual o diretor quis contar a história. Nos primeiros quatro minutos, Arcos conta uma história de globalização, Guerra Fria e contextos globais que nos ajudam a chegar na melhor cidade do mundo, como assim é descrita: Olinda. O processo de pesquisa e, principalmente, arquivo, ficam evidentes a partir do momento em que o público — sendo ou não de Pernambuco — é imerso no universo das ladeiras e politicagem da época. "O filme dependia do arquivo, já que eu me propus a gastar todo o dinheiro com o arquivo e não filmar nada. Então, eu fiz uma aposta completa que ninguém me recomendava", explica.
As imagens, por si só, podem sim dizer muito, mas é a atmosfera de Arcos que capta qualquer um que tenha vivido a efemeridade dos anos 2000. A sensação é de acessar um fórum, abrir o MSN ou entrar naquela comunidade do Orkut enquanto vê as imagens de uma cidade que não existe mais — assim como qualquer pedaço recortado da história.
Como toda lembrança, porém, os arquivos e o resgate da memória passaram por um esquecimento literal ao longo dos anos em Olinda e no Estado. O recurso de imagens não se torna escasso, mas corre o risco de ser deletado — nesse caso, destruído — sem políticas públicas específicas.
Desta forma, Arcos acaba por se posicionar ele mesmo como um arquivo da cidade do cineasta e um recorte da sua história: o conflito global entre comunismo x capitalismo, ilustrado por uma disputa política pela prefeitura de Olinda, encabeçada por Luciana Santos e Jacilda Urquisa. "Eu sabia que era um filme sobre o McDonald's e sobre Luciana [Santos], e eles eram um símbolo dessa esquerda e dessa direita em uma 'guerra fria' sobre a dominância dessa cidade que é Olinda, que é a cidade mais importante do mundo. Já era essa mistura dos símbolos com a megalomania pernambucana e a ironia de tudo”, justifica Douglas Henrique.
Vai ter molho?

Em outro conceito da comunicação, é essencial que a mensagem seja clara e entregue a informação ao destinatário. Para além disso, usar certos recursos de linguagem, me como a ironia, também exigem alguns fatores como contexto e entendimento entre ambas as partes.
Ainda assim, como contar uma história (que poderia muito bem ser descrita como) regional e, ao mesmo tempo, fazer rir sobre ela? Em Arcos, a ironia é um personagem à parte, entoada de forma magistral pelo narrador da história, Giordano Castro. Para mim, que não cresci em Olinda, mas estive por perto, a risada veio de forma natural, esperada. No entanto, não deixei de me perguntar o que motivaria o riso e a descontração de alguém que assiste de outro continente, criado sob diferentes culturas, contextos e, principalmente, senso de humor.
Douglas me explica que a intenção sempre foi ser engraçado. Afinal, o fato de Olinda ter sido a primeira cidade do mundo a falir o McDonald's desperta o riso de descrença, o sorriso de bairrismo ou a risada de tamanha aleatoriedade desse "fato".
"Queria explorar essa vertente, não a seriedade da política ou as dificuldades da cidade de uma forma crítica social tradicional. Acho que isso tem que estar, mas tem que ter uma capa de 'pop' para o filme, que queira alcançar as pessoas", explica o cineasta.
É interessante a preocupação em trazer o debate para o acessível, o engraçado, ao mesmo tempo em que se joga luz a uma discussão antiga da modernidade: a briga do capitalismo yankee versus o fantasma do comunismo da URSS. O diretor defende ainda que obras como Arcos levantam pautas que deveriam ser conversadas no dia a dia.
Afinal, política é ordinário. "Não é uma questão de substituir [o debate sério], com certeza não, acho que o debate político tem que ser realmente sério. Mas a gente perdeu essa questão que é tratar a política como uma coisa do nosso dia a dia mesmo. A gente cresceu com esse papo de que política não se discute", complementa.
Hambúrguer sabor pernambuquês: é pra comer no local!
Não é de hoje que o cinema e a megalomania pernambucana caminham juntos. Nos últimos anos, no entanto, a sensação é de que a vontade de falar de si ultrapassou a linha narrativa e agora se torna algo mais próximo a um subgênero.
Este universo de apresentar elementos de Pernambuco para o mundo requer, como toda história bem contada, contextualizações e o olhar do porquê aquilo é importante. Em Arcos, o macro da rede de fast food é o ponto de partida — mas que, em vez de seguir a lógica tradicional para um micro, volta-se para outro superlativo: a cidade de Olinda.

"Todo mundo sabe o que é o McDonald's, da Coreia do Norte até a Venezuela. Mas
ninguém sabe o que é Olinda fora daqui. Gastamos os 4 minutos iniciais do filme para mostrar o mundo inteiro se modulando até chegar no lugar mais importante do mundo, que é Olinda. As pessoas têm que primeiro entender qual é a importância de Olinda para aí elas virem com a gente", afirma Douglas.
No entanto, entender a importância
desse espaço e do universo pernambucano/olindense é também entender suas problemáticas e suas demandas. Ao mesmo tempo que a cidade é protagonista do premiado curta, suas ruas e o seu cinema continuam enfrentando problemáticas, falta de políticas de incentivo e todos os cenários já conhecidos pelo mundo das artes e audiovisual.
Em paredes concretas, esse exemplo se solidifica no Cine Olinda, que soma anos de abandono e eternas promessas de revitalização. Exatamente por isso, a exibição do filme no local neste sábado (19), às 18h, carrega um peso poético e político único.
"É a sessão mais importante do filme até agora. O filme é sobre a política de Olinda e a gente vê todo esse descaso com os espaços públicos. Completa dez anos da ocupação do Cine Olinda e nada avançou de verdade. Estar nesse espaço, ajudando a puxar público e impulsionar essa mobilização, é estar em uma causa que a gente acredita demais", pontua Douglas.
Preservar o arquivo, a história e os espaços físicos do audiovisual não é um mero capricho nostálgico, mas um ato de legítima defesa da nossa identidade. Afinal, se não cuidarmos dos palcos onde nossas narrativas ganham vida e das gavetas onde nossas lembranças são guardadas, corremos o risco de ver nossa própria história virar um mito distante, tão efêmero quanto o sabor de um sanduíche de fast food.
Brinde especial
Se a recepção local se traduz na força da ocupação comunitária, no cenário global a caminhada de 'Os Arcos Dourados de Olinda' tem sido vertiginosa. Em menos de um ano, o curta soma 70 seleções em festivais e 50 prêmios ao redor do globo, com passagens confirmadas pelo Festival de Biarritz, na França, e por festivais na Bélgica nas próximas semanas.
A coroação desse fenômeno orgânico veio neste mês, com a confirmação de que o curta está oficialmente qualificado para concorrer a uma vaga no Oscar. Um feito raro para uma produção independente, realizada praticamente sem orçamento e sustentada no engajamento boca a boca de público e crítica.
"Qualificamos o filme em abril e recebemos a confirmação do Oscar agora no começo do mês. É um caso bem raro de curta brasileiro que teve uma adesão tão grande e natural. Nosso objetivo agora é fazer o filme rodar muito, ter mais sessões e ver a resposta das pessoas no Brasil", comemora o diretor, que encara a disputa na Academia com o mesmo humor característico do filme. "Estamos em um mar de cerca de 60 filmes disputando para chegar nos 15 pré-selecionados. Quem sabe a gente não chega lá a partir do desejo e do barulho da galera de Pernambuco e do Brasil?".













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