‘Hamnet: A Vida Antes de Hamlet’ emociona sobre história de como tentar ressignificar o luto
- Rayane Domingos

- 15 de jan.
- 4 min de leitura
Atualizado: 15 de jan.

Lidar da "melhor maneira" com o luto é um dos grandes dilemas da humanidade, independente da passagem do tempo. A psicologia entende que o ser humano precisa lidar com fases, que vai da negação até a aceitação, como em uma caminhada que pode ser longa e ressignificada de diversas formas. Falar sobre o assunto ainda é tabu, e retratar isso de uma forma não piegas é um grande desafio.
E Hamnet: A Vida Antes de Hamlet consegue traduzir isso de uma forma muito sensível e franca ao falar sobre a morte do filho de Agnes e Willian Shakespeare. Com direção da Oscar Winner Chloé Zhao, o filme é estrelado por Jessie Buckley, Paul Mescal, Joe Alwyn, Emily Watson, Jacobi Jupe, Olivia Lynes, Bodhi Rae Breathnach, Noah Jupe e David Wilmot.
Baseado no romance de Maggie O'Farrell, o filme acompanha a história de Agnes e Shakespeare, desde quando os dois se conheceram. Ela como uma mulher que perdeu a mãe, uma bruxa, e ele sendo um tutor que ensina latim para crianças. Eles se apaixonam, se casam, mesmo com a família sendo contra a relação, e tem filhos. Entre tantas atribulações, com a ausência do aspirante a dramaturgo, que se muda para buscar o grande sonho de trabalhar com teatro, uma tragédia abate a família quando o pequeno Hamnet morre e transforma completamente o lugar.
Outra perspectiva da história

William Shakespeare foi um dos dramaturgos mais importantes do mundo, com obras que ditaram a maneira de vermos o mundo, a relação com as pessoas e o poder. Todas as homenagens feitas para ele são completamente fundadas e merecidas pelo trabalho espetacular como artista. Mas é preciso olhar também para os outros protagonistas da história.
A ideia de manter Agnes como a personagem principal, assim como no livro de Maggie O'Farrell, que também escreveu o roteiro junto com Chloé Zhao, é o grande acerto do filme, sobretudo por se tratar do indiscutível Shakespeare que naturalmente tem o foco de tudo para si.
Ter o olhar feminino para as questões em torno da personagem também foi fundamental para contar a história. Agnes é uma mulher de muitas camadas e que vão sendo desenvolvidas com cuidado e dando ao público um grande entendimento sobre essa persona, meio menina meio bicho, que vai amadurecendo ao longo do tempo com as dificuldades que a vida vai impondo.
Confesso que a partir do terço final, por se tratar de um filme de época, as situações ficam bem monótonas e quase perdendo o fio da meada. Mas isso é porque, de fato, estamos vendo uma dinâmica familiar aparentemente tranquila. Vendo o marido infeliz, Agnes decide pela família que ele deve partir para realizar o sonho de estudar e escrever peças de teatro.
Meio sem jeito, e sem querer atrapalhar a possível carreira do marido, ela decide também que seria mãe solo de três crianças, pelo menos por longos meses. Ele continua sendo o provedor, sempre retornando aos braços da amada com muito carinho, o que poderia dar errado? Tudo.
Quem leu a sinopse fica ali, atento esperando que a morte se concretize porque aquilo tudo parece arrastado e meio chato. Mas quando o fato acontece, você fica querendo voltar atrás para evitar todo o sofrimento daquela família, daqueles irmãos e daquela mulher, que sempre se mantém muito firme e forte diante as dificuldades da vida, mas se vê completamente perdida e desesperada.
A tristeza profunda é o único sentimento possível a partir de então. E tudo fica ainda mais sensível e delicado, tratando o luto como uma coisa palpável, complexa e inesperada. A busca por seguir a vida, se é possível que isso aconteça de alguma maneira "saudável", é ainda mais dolorosa principalmente quando se tem muita culpa envolvida.
Ser ou não ser...eis a questão

O filme poderia ser apenas essa carga imensa de sensações e sentimentos, mas a beleza dele se dá também por outros aspectos. A direção de Chloé é primorosa, sempre dando destaque ao que precisa, capturando de uma maneira muito sensível as nuances de cada personagem.
É preciso exaltar a ótima direção de arte, levando o espectador para dentro da Inglaterra dos tempos sombrios de Peste Negra, e a direção de fotografia, que também nos transporta para a monótona vida da família.
Ultimamente estamos acompanhando tantos filmes que usam tão mal a iluminação, numa tentativa ruim de dar um tom mais pesado e triste as cenas, o que é completamente diferente nesse filme. As cenas na floresta são belíssimas aproveitando a luz natural, enquanto as cenas no escuro são muito bem iluminadas porque está acontecendo uma cena importante ali que todo mundo precisa assistir. E priu.
O grande destaque do filme é com certeza o elenco. A começar pelas crianças, Olivia Lynes, Bodhi Era Breathnach e Jacobi Jupe, que fizeram um trabalho emocionante como os irmãos, especialmente o pequeno Hamnet. É impossível não chorar com a atuação dele, principalmente na sequência da morte.

Paul Mescal é apaixonante como Shakespeare, de uma sensibilidade imensa para traduzir aquele homem confuso, que sofreu diversos abusos da família ao longo dos anos e de uma alma intrinsecamente artística. Mas ele só consegue ser assim porque Jessie Buckley brilha absurdamente antes.
Para ser sincera, é bem assustador perceber o quanto a atriz é fisicamente diferente de Agnes, um grande ponto para a caracterização com cabelo e maquiagem. Com a história centrada nela, Jessie consegue explorar e nos mostrar todas as camadas e sofrimento da personagem. Além das cenas finais, toda a sequência da morte é desesperadora e eu nunca vou esquecer o grito que ela dá ao pegar a criança no colo.
O filme nos traz sentimentos tão conflitantes e doídos, principalmente por se tratar de como ressignificar o luto. Quando termina, a sensação é que você entendeu tudo. É até difícil voltar a vida normal e se deparar com a crueldade que é: a gente não sabe de nada e cada experiência é implicitamente individual.
Veredicto: 4/5














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