‘O Drama’ provoca ao fazer de uma comédia romântica uma discussão moral
- Rayane Domingos
- há 6 horas
- 4 min de leitura
Estrelado por Zendaya e Robert Pattinson, o filme nos causa um misto de sensações e um desconforto que não para mesmo após a subida dos créditos na tela

[Atenção: essa crítica NÃO contém spoilers]
O público tinha poucas informações sobre o novo projeto estrelado por Zendaya e Robert Pattinson, mas já demonstrava uma grande expectativa para acompanhar a saga deles como casal. As primeiras imagens chamaram muito a atenção e a sinopse vaga dava o caminho de que algo muito controverso estava por vir. E não estávamos errados em relação a isso.
The Drama, novo filme de Kristoffer Borgli, nos causa um misto de sensações e opiniões divergentes do primeiro ao último minuto. A discussão provocativa sobre a moral e o existencialismo humano, sobretudo dentro de um relacionamento, é o grande cerne do filme. A única certeza absoluta é das atuações deslumbrantes de Zendaya, Pattinson, Mamoudou Athie e Alana Haim.
A comédia romântica conta a história de Emma e Charlie, um casal feliz e apaixonado que está prestes a se casar. Mas a relação muda drasticamente quando eles decidem participar de uma brincadeira, aparentemente inocente, com os amigos enquanto bebiam. Eles tiveram que confessar a coisa mais abominável que fizeram na vida.
Quem nasce bom?
É importante destacar que existe uma grande dificuldade para escrever essa crítica tentando não dar spoiler sobre a grande revelação do filme. Eu tenho certeza que provavelmente você leu sem querer, e que parece até desmotivado para assistir. Mas garanto que saber do segredo não é tão relevante assim quando se percebe qual o rumo que a história está desenrolando.
O filme começa já nos mostrando Emma e Charlie como um casal feliz e perfeito, sem precisar ficar enrolando com detalhes sobre o início do relacionamento. O flashback é um recurso bem utilizado e que nos ajuda a entender o ponto de vista da relação, dos comportamentos e qual a imagem um tem do outro.

A única coisa que vou contar aqui é que a revelação acontece ainda no começo. E este é um dos acertos do filme: fazer com que o assunto paute todo o resto da história, mas que não seja a única coisa impressionante que será mostrada. O enredo é bem construído em uma crescente, que vai desembocar numa comédia de erros, e nos causando uma tensão a cada acontecimento.
O desconforto é só mais uma das sensações que o filme nos leva a sentir, seja sentado na cadeira do cinema ou em qualquer lugar que você for assistir. O humor ácido se faz presente muito bem nos diálogos e nas sequências mais decisivas. Rir muitas vezes será a única saída tanto para os personagens quanto para o público, que se vê imerso em uma discussão moral, de ética e existência sobre relações no geral.
Enquanto todas essas questões são colocadas na telona, o filme também te faz questionar sobre o que acha daquilo tudo. Você acredita em quem? Você confia nisso? Realmente teve uma mudança completa? Mas o que isso afetaria realmente hoje em dia? Esse é realmente um problema? Sei lá!
Até em Rousseau e a teoria filosófica sobre a natureza humana eu lembrei enquanto me questionava a cada ação dos personagens. Como se eu tivesse vivendo com eles e precisasse tomar uma atitude ou ajudando a montar a acusação em um júri. O filme vai nos levando a refletir sobre muitas situações, as mais hipotéticas possíveis em contextos provavelmente inimagináveis.
Relação saudável?
A relação do casal é o ponto principal da trama, até porque ainda é uma comédia romântica, que vai descambando para outros assuntos. Mas o centro ainda é como esse relacionamento foi construído, sobretudo a base de que. Uma mentira inofensiva ou a omissão de fatos importantes vai realmente modificar a imagem que tenho do meu parceiro (a)?
É interessante perceber como a relação de Emma e Mike é moldada a partir da imagem que um criou do outro. Um realmente quer saber como de fato o outro é? Isso vai ser suficiente para permanecer? São muitas perguntas, eu sei, mas são reflexões que o filme te leva a pensar e a julgar.
Esse tema segue vivo e ainda mais latente quando você percebe a relação do outro casal, Rachel e Mike. É difícil não se colocar no lugar de apontar o que é certo e errado, e até se projetar nessas relações.

O grande trunfo do filme é o elenco muito bem escolhido e dirigido. Zendaya e Pattinson fazem um par escandaloso. A dinâmica deles em cena, a química e o timing de comédia são incríveis. É possível sentir e entender tudo sobre e contra o casal. A montanha-russa emocional que o espectador se aventura durante duas horas de filme é muito bem construída porque os dois também se jogam nesse caos de provocação.
Alana Haim e Mamoudou também são os grandes destaques, principalmente nas cenas que estão separados, quando eles trazem ainda mais profundidade e dúvidas sobre os personagens. O elenco é bem enxuto e a maioria é formada por mulheres com ótimas atuações, como Hailey Gates, Sydney Lemmon e Hannah Gross
Confesso que compreendo as críticas, principalmente as negativas, sobre a maneira que a grande revelação do filme é tratada. É um tema muito sensível para quem sofreu as consequências dos atos, mas extremamente necessária visto que as estatísticas só aumentam a cada ano. Porém, já conversamos sobre a arte ser livre para tratar sobre temas quaisquer e nós, enquanto seres sociais, somos livres para criticar a partir da nossa visão individual sobre o mundo.
O único fato, aparentemente concreto, é que ele será mais um filme controverso da A24 que vai dividir muitas opiniões. A provocação construída antes da estreia, muitas delas com vídeos curtos das cenas mais reflexivas, vai perdurar após os créditos subirem na tela.
Veredicto: 3,5/5










