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'O Diabo Veste Prada 2': sim, a sequência perfeita existe

  • Foto do escritor: Mikhaela Araújo
    Mikhaela Araújo
  • há 3 horas
  • 5 min de leitura

Apesar de não ser exatamente uma revolução cinematográfica, sucessor do clássico dos anos 2000 é uma prova rara da nostalgia bem feita


Miranda Priestly (Meryl Streep) e Andy Sachs (Anne Hathaway), mais deslumbrantes que 20 anos atrás em O Diabo Veste Prada 2 | Imagem: Divulgação/20th Century Studios
Miranda Priestly (Meryl Streep) e Andy Sachs (Anne Hathaway), mais deslumbrantes que 20 anos atrás em O Diabo Veste Prada 2 | Imagem: Divulgação/20th Century Studios

O momento de anúncio de uma sequência de um grande clássico mainstream do cinema é sempre, no mínimo, tenso. Ainda mais quando o filme original é querido pelo público, pela crítica, pelo elenco. É exatamente esse o caso de O Diabo Veste Prada, longa de 2006 dirigido por David Frankel, escrito por Aline Brosh McKenna e estrelado pelas excepcionais Anne Hathaway e Meryl Streep. Frankel, McKenna, Hathaway, Streep e praticamente todo o elenco de 2006 estão juntos novamente duas décadas depois em O Diabo Veste Prada 2. E a prova veio: sim, é possível fazer uma sequência 20 anos depois tão boa quanto a original.


As relações mercadológicas da moda e do jornalismo são apresentadas em O Diabo Veste Prada 2 | Imagem: Divulgação/20th Century Studios
As relações mercadológicas da moda e do jornalismo são apresentadas em O Diabo Veste Prada 2 | Imagem: Divulgação/20th Century Studios

Nos últimos meses, estamos vivendo um retorno repaginado dos anos 2000, em vários setores da sociedade. Desde as piores partes, como o culto à magreza — alguém, por favor, pare o uso desenfreado de canetas emagrecedoras —, até as melhores, como as roupas Y2K e, agora, um longa de uma das melhores comédias do início do século. A história do mundo, assim como a moda, é cíclica. O Diabo Veste Prada 2 toma forma na realidade atual, nua e crua. A ascenção das inteligências artificiais, a morte da mídia impressa, o definhamento do jornalismo consciente, o uso excessivo de redes sociais e a velocidade absurda com que as coisas acontecem.


A trama começa com a nossa querida e já conhecida Andy Sachs (Anne Hawathaway), agora uma respeitada jornalista investigativa, que, ao mesmo tempo que ganha um prêmio importante, percebe que sua competência de nada serve para a realidade do capitalismo tardio quando sofre as consequências de uma demissão em massa do local que trabalhava.


Enquanto isso, a temida e icônica Miranda Priestly (Meryl Streep) sente na pele que prestígio e nome não são mais tão valiosos para o sistema quando a revista de qual é editora-chefe, Runway, começa a realmente declinar, vítima de tudo que já citamos aqui mais acima.


Imagem: Divulgação/20th Century Studios
Imagem: Divulgação/20th Century Studios

O cenário desfavorável faz com que as duas precisem trabalhar juntas novamente 20 anos depois, num mundo mais seco, sem tanta cor e sem tanta vida, algo que se reflete em diversos aspectos no filme, inclusive técnicos. Mesmo que não tenha sido intencional, a iluminação e a fotografia mais "cruas" e com uma cara de pastiche de qualquer obra de streaming acabam funcionando quase como uma metalinguagem do contexto em que a história se passa.


Streep e Hathaway estão praticamente iguais a quem eram há 20 anos, visualmente falando (ambas dando aulas de como fazer um bom uso de procedimentos estéticos, rs). Já as personagens, apesar de parecerem as mesmas de 20 anos atrás à primeira vista, vão mostrando novas camadas, mais profundas, de amadurecimento ao longo do filme. Andy, apesar de mais madura e confiante, ainda fica um pouco mal das pernas na presença da ex/atual chefe. Miranda ainda é a mulher aparentemente inatingível de antes, mas, agora é forçada a ser um pouco mais maleável, seja pelas regras sobre assédio moral no trabalho, seja pelas garras de quem está acima dela no sistema capitalista. É interessante observar as duas interagindo, cada uma com seus defeitos e qualidades. Nem precisamos falar tanto da técnica das duas monstras da atuação, que são, mais uma vez, a alma do longa.


Nigel (Stanley Tucci) continua um parceiro incrível para Andy (Anne Hataway), mesmo após duas decadas | Imagem: Divulgação/20th Century Studios
Nigel (Stanley Tucci) continua um parceiro incrível para Andy (Anne Hataway), mesmo após duas decadas | Imagem: Divulgação/20th Century Studios

Nigel (Stanley Tucci), fiel escudeiro de Miranda, segue na mesma posição de antes e traz o mesmo carisma especial que trouxe no original. A delicadeza do seu tratamento com Andy e com a equipe, além do amor que ele tem pela moda e pelo trabalho, dão um toque extra.


A determinada e fria Emily (Emily Blunt) também está de volta e com uma importância narrativa ainda maior que no longa de 2006. Enquanto Andy representa um lado mais resistente e otimista dos profissionais de comunicação, lutando pela permanência do jornalismo ético e real, Emily é o exemplo perfeito do profissional que apenas aceitou as regras do mercado publicitário e, como era há 20 anos, dá tudo (TU-DO!) de si para se manter no jogo, mesmo que precise apelar para meios não tão moralmente corretos.


Emily (Emily Blunt) está de volta ainda mais importante que antes | Imagem: Divulgação/20th Century Studios
Emily (Emily Blunt) está de volta ainda mais importante que antes | Imagem: Divulgação/20th Century Studios

Quanto ao roteiro, O Diabo Veste Prada 2 não traz nada exatamente inovador, sendo semelhante ao seu antecessor em diversos pontos, inclusive sequências de cena — a icônica passagem de Andy pelas ruas de Nova York com cafés e looks bafônicos é recriada de uma forma diferente, mas, está presente. Apesar disso, não é apenas uma cópia barata e apresenta novos conflitos, dinâmicas e camadas das personagens que não tínhamos tido acesso no primeiro.

Algumas subtramas não funcionam tão bem e soam como uma "forcação de barra" para inclinar mais o filme para uma comédia romântica. Porém, nada que atrapalhe realmente a experiência do telespectador. Já as participações especiais, que vão desde uma cena musical com Lady Gaga até pontas brevíssimas de personalidades relevantes no mundo da moda, funcionam super bem. Divertem, fazem você pensar "eita, olha fulana!" sem tirar seu foco da história e não roubam a cena para si, deixando os holofotes em quem realmente está sob eles o tempo inteiro. Preciso pontuar que ser uma jornalista e assistir à O Diabo Veste Prada 2 é uma experiência. O filme é bem pessimista e quase apocalíptico para o nosso mercado, e, mesmo sendo divertido na sua totalidade, você fica com um gosto agridoce na boca depois de assistir. Afinal, não é segredo para ninguém que a realidade retratada é a nossa realidade e que ser jornalista, hoje em dia, significa ter que resistir, aos trancos e barrancos. A nossa relação com trabalho é tóxica, já que a linha entre amor e obrigação fica borradíssima e turva.


Mas, feliz ou infelizmente, temos roupas bonitas, músicas dançantes e diálogos engraçados para nos entreter da nossa própria desgraça. "Está tudo bem!", repetimos para nós mesmos, tal qual o desenho do cachorro tomando café num incêndio.


Imagem: Divulgação/20th Century Studios
Imagem: Divulgação/20th Century Studios

Reflexões mercadológicas à parte, O Diabo Veste Prada 2 é uma grata surpresa para os fãs do filme original e uma ótima experiência cinematográfica para quem nunca teve contato com a trama. Funciona bem como obra nostálgica, honra a memória do clássico e consegue trazer mais pessoas para o universo da revista (ou agora blog?) Runway, Miranda e Andy.


Que alívio perceber que nem toda sequência tardia só serve para o estúdio vender ingressos em nome de nostalgia vazia. Veredito: 8,5/10



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