“O Morro dos Ventos Uivantes”: adaptação foca em relação tóxica ardente, mas limita seu impacto
- Bianca Dias

- 13 de fev.
- 3 min de leitura
Adaptação de Emerald Fennell com Margot Robbie e Jacob Elordi oscila entre provocações superficiais e fuga das reações viscerais e desconfortáveis da obra original

Até quando o amor intenso é sadio? Esse é o questionamento que ronda o “O Morro dos Ventos Uivantes” – sim, com aspas mesmo – filme dirigido por Emerald Fennell como adaptação do clássico da literatura inglesa de mesmo título.
O enredo conta a história da relação um tanto tóxica entre Heathcliff (Jacob Elordi), um órfão adotado pela família Earnshaw, e Catherine (Margot Robbie), a filha do senhor do Morro dos Ventos Uivantes, uma propriedade localizada em Yorkshire, Reino Unido. Apesar dos grandes sentimentos compartilhados pelo seu amigo, Cathy decide, ao chegar na vida adulta, se casar com o vizinho Edgar Linton, para ascender socialmente e deixar para trás o seu passado sombrio que tanto envolvia seu antigo amor. No entanto, o seu rumo muda quando Heathcliff volta para sua vida como um homem rico e cheio de desejo de vingança.
No início deste texto, fiz questão de destacar as aspas porque elas significam muito. O longa está longe de ser uma releitura fidedigna. Muito pelo contrário, os leitores assíduos logo vão perceber mudanças gritantes entre as duas produções. A obra original é narrada por Mr. Lockwood e Nelly Dean relatando suas visões do relacionamento (alternando entre memórias do passado e do presente) entre os protagonistas, enquanto nas telas foca-se numa estrutura linear sem narração; personagens importantes das páginas foram esquecidos, como o irmão de Cathy, Hidley – na versão adaptada, sua personalidade abusiva e controladora é vista no pai alcoólatra e viciado em apostas; por fim, não tem como escapar de falar sobre a escolha do elenco: Jacob Elordi e Margot Robbie possuem uma aparência muito mais madura do que os jovens personagens e estão longe da descrição de “cigano de pele escura: e “longos cachos castanhos", respectivamente.
Sabendo-se que se trata de uma produção de 2026, colocar os dois atores em destaque não foi decisão aleatória. Elordi e Robbie costumam ser vangloriados pela sua aparência e nada melhor para um jovem público acompanhar um romance quente entre os dois. Isso incomoda, porque não tem como ignorar as famosas “IPhone faces” dos atores e como, apesar da boa atuação, eles parecem estar reproduzindo uma grande fanfic do século 21 ambientado em um cenário dos anos 1800. Para os fãs de ‘Euphoria’, talvez seja um spoiler interessante de como o personagem Nate se portará na terceira temporada…
Por causa do grande foco na relação do casal, o roteiro ainda conquista porque é impossível não se envolver nesse relacionamento que brinca tanto com os limites do tesão e da obsessão. Como espectador, você tem o desejo de vê-los se fundirem em um corpo só, porém, ao mesmo tempo, condena o egoísmo do casal que envolve suas famílias e empregados numa prisão emocional e término mal resolvido. Só que, no outro segundo, você já volta a vibrar com as discussões, os olhares, os toques sutis (outros nem tanto), a subordinação de um pelo outro e finalmente percebe que Heathcliff e Cathy até se merecem, exatamente pela sua toxicidade e ódio apaixonado que sentem.
Entretanto, será que a escolha de Emerald Fennell para focar em um projeto de slow burn foi a melhor? Reconhecemos o grande potencial da diretora em trabalhar com o grotesco e o choque do absurdo, como ela fez na polêmica cena de Saltburn em que Barry Keoghan aparece completamente pelado em cima de uma cova, praticando relações sexuais com o seu amado falecido, ironicamente interpretado por Jacob Elordi. Longe de causar esse nível de repulsa – característica forte do livro – e expor nudez explícita, a diretora prefere ficar na zona de conforto e explorar somente a química e tensão sexual entre Jacob e Margot, deixando de lado as cenas íntimas aprofundadas e explorando uma experiência sensorial, mostrando cores, texturas e barulhos que remetem ao erotismo sem diretamente mostrá-lo – esses visuais, inclusive, são um dos pontos fortes dessa versão. Porém é impossível ignorar o fato de Fennell, que fez questão de usar a frase de efeito “perca o controle” na divulgação do filme, parece se contradizer quando a própria faz isso de maneira recatada, superficial e o tanto óbvia para quem aprecia um romance gótico picante.
Com tantos opostos, é fácil afirmar que “O Morro dos Ventos Uivantes” se trata de uma complexa paráfrase. Não vá esperando ver as páginas do livro ganhando vida nas telas, mas saiba que ele vai despertar sentimentos em você, te fazendo questionar os limites das emoções, da impulsividade e da devoção eterna por alguém. O longa finaliza de forma teatral e um tanto poética, dando um ponto final certeiro nessa intensidade perturbadora que eles protagonizam e provocando um último suspiro no público.
Veredicto: 4/5














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