'Michael' e a natureza humana do Rei do Pop
- Samantha Oliveira

- 21 de abr.
- 4 min de leitura

Cinebiografias são um subgênero do cinema difícil por si só. De que maneira é possível resumir a vida, trajetória e dilemas de uma pessoa pública - tudo isso dentro de pouco mais de 120 minutos? Não faltam exemplos de pouca profundidade, veracidade ou a coragem necessária para retratar essas personalidades da maneira que merecem - ou deveriam - na sétima arte. O desafio fica ainda maior quando o objeto principal é a maior estrela da história da música, a qual possui uma extensa caminhada sob os holofotes e, de forma diretamente proporcional, polêmicas e qualidade artística. ‘Michael’ chega aos cinemas brasileiros sob essa árdua tarefa, ao mesmo tempo que tenta sanar a saudade de 17 anos da ausência do Rei do Pop.
Estrelado por Jaafar Jackson, sobrinho de Michael, o longa dirigido por Antoine Fuqua causou 1% do alvoroço que o cantor causaria em redes sociais. Foram criadas expectativas, teorias, comparações e, acima de tudo, curiosidade acerca de mais um capítulo envolvendo o astro. O ponto principal - que também é levado como o grande trunfo ao longo das 2 horas e 8 minutos de filme - é a caracterização e familiaridade de Jaafar com Michael Jackson em diferentes fases da vida e seus respectivos aspectos físicos.
Do caminho dos stills, até os trailers e finalmente nas telonas, a caracterização é um ponto de atenção em ‘Michael’. Seu maior ponto positivo não está nas próteses ou perucas usadas pelo protagonista, mas sim nos trejeitos bem impressos por Jaafar e os detalhes que levaram um artista negro imponente à sua figura mais conhecida e frágil nos últimos anos de sua vida. É nesses detalhes em que o público percebe o uso de maquiagens por conta do vitiligo, as questões de autoestima que nunca o abandonaram e o zelo pela privacidade - por mais que essa última fosse frequentemente quebrada.
Por outro lado, fica clara a escolha da direção em valorizar essa similaridade entre os artistas. A todo momento, é como se dissesse ao público “estão vendo como eles estão parecidos?”, “Michael está aqui” ou “vejam a maquiagem e próteses como estão incríveis”. O resultado são alguns momentos de desconforto - e nem tanta similaridade assim - que levam ao vale da estranheza, apesar do tamanho esforço.
Não Pare Até Você Se Satisfazer
Não são necessários 128 minutos, um curta ou um documentário para perpassar o quanto Michael Jackson era um gênio. Ainda assim, o longa consegue exprimir bem tudo o que o fazia artista: o interesse e aprendizado na produção musical, a autocobrança e pressão para ser o maior e melhor, o processo de composição e até mesmo a rivalidade com Prince no auge da carreira - onde não dormia ou acordava de madrugada com medo de perder a ideia para o guitarrista.
O filme, aliás, se prolonga nesses momentos, que são um deleite de assistir, apesar de repetitivos. Hits como ‘Don't Stop Til You Get Enough’, ‘Thriller’ e ‘Human Nature’ são a deixa para montagens musicais que condensam a passagem do tempo, usadas de forma recorrente (e desgastante) no filme. Para o público, essa é não só uma oportunidade de entender o processo de criação e captar mais alguns detalhes de Michael, como também relembrar porque suas obras foram um sucesso. Tudo isso enquanto tenta não dançar na própria cadeira do cinema.

Como uma boa cinebiografia musical, não faltam cenas de shows e turnês, mostrando a megalomania por Michael e o poder do artista no palco. Por outro lado, seria mais interessante acompanhar também esse processo criativo - a escolha dos looks, seu aprimoramento na dança ao longo dos anos, assim como de que maneira a pressão sempre o afetou mental e fisicamente.
Natureza Humana
Assim como no jornalismo, contar uma história real em um filme é escolher o que e como vai ser narrado. Em ‘Michael’, essa escolha é confusa em determinados momentos.
Apesar do mérito de não ser chapa branca em relação ao pai do artista - Joe Jackson e suas respectivas violências - falta em ‘Michael’ toda a profundidade pertencente à Michael e sua figura. Discussões como racismo, saúde mental e até mesmo as condições de saúde do artista - que o levaram a seu fim trágico em 2009 - não são contempladas tanto quanto poderiam ou deveriam. Tantas são as camadas que atravessaram o astro ao longo de sua vida, que é quase possível enxergar quais foram escolhidas a dedo na escolha da narrativa.
Assim, a janela que se abre para conhecer mais da pessoa por trás do Michael Jackson é construída sob uma ótica que beira o idealizado: um ser humano amável, ainda preso à infância, com uma afeição (estranhamente retratada) por animais. Pouco se sabe, por exemplo, sobre sua sexualidade - algo tão questionado posteriormente -, ou sobre seus diagnósticos de lúpus e vitiligo, ou até mesmo sobre seu processo de construção de referências como ser humano e como artista.
‘Michael’, no fim das contas, cai em um erro comum de filmes do gênero: mostrar demais quem é aquele em frente ao microfone e um pouco do que ele passou, principalmente na infância, e ignorar, pelo menos por enquanto, quem se construiu e se formou como Michael Joseph Jackson.
O Jeito Que Você Me Faz Sentir

Atenção, spoiler!
O “fim” de ‘Michael’ deixa claro uma teoria já levantada pelos fãs: a sequência do longa, intitulada ‘Jackson’. Respondendo à minha própria pergunta anterior: não é possível retratar em pouco mais de duas horas a vida e estrelato de alguém como ele. Ainda assim, é definitivamente uma escolha a forma e o que se é contado para o público neste primeiro ato.
Apesar de passar por cima das complexidades artísticas e pessoais do astro, ‘Michael’ cumpre a função de satisfazer os fãs, saudosistas e apreciadores do seu trabalho musical, enquanto sua natureza humana, pessoal e intransferível segue como um mistério. Ou melhor, um thriller.
Veredicto: ??????














Eu amei o filme e amei a resenha! Também achei um filme curtinho para a toda a trajetória dele
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