top of page

Natal Amargo: Vida e arte em abraço e colisão

  • Foto do escritor: Thallys Rodrigo
    Thallys Rodrigo
  • há 15 horas
  • 4 min de leitura

Recém-exibido em Cannes, novo filme de Almodóvar propõe reflexões sobre autoria, ficção e realidade de forma coesa, porém morna. 



Um escritor também é um ladrão? 


Para quem cria ficções, a inspiração pode estar em todo lugar, seja dentro de si ou em terceiros. De repente, a história de alguém pode parecer o ponto de partida perfeito para uma nova narrativa. Mas até que ponto vai o direito se “inspirar” na vida pessoal alheia. Inspiração é apropriação? Ou pode-se dizer que a história do outro, quando capturada e transformada por um artista, também se torna um pouco dele próprio? 


Após competir pela Palma de Ouro no Festival de Cannes 2026, “Natal Amargo” chega aos cinemas do Brasil neste dia 28. O filme começa, aparentemente, como um mais um drama cotidiano, mas aos poucos se revela algo com mais camadas. O novo filme de Pedro Almodóvar é uma obra sobre como a realidade molda a arte, como a arte molda a realidade e sobre fronteiras entre o eu e o outro (ou seria a falta delas?). O que resulta em um filme agradável e com muita clareza em suas discussões, mas emocionalmente insuficiente. 


De início, acompanhamos a publicitária (e ex-cineasta) Elsa, uma mulher que, em pleno clima de Natal sofre com uma enxaqueca insuportável. Socorrida pelo namorado Bonifacio, ela sofre cada vez mais com uma dor que, aos poucos, descobrimos ter origens mais profundas. A verdade é que é uma mulher lidando com uma perda familiar e uma profunda insatisfação profissional. Para se curar, Elsa decide romper com sua rotina e passa a se envolver com os problemas das amigas, Patricia e Natalia, e logo começa a se inspirar em suas vidas para escrever o roteiro de um novo filme. 


Mas conforme logo descobrimos: Elsa não é real. Ela é a história dentro da história, fruto da criação do cineasta Raúl, que tenta escrever uma nova história para não viver, apenas, dos louros de obras passadas. Para isso, ele mergulha em seus próprios medos, traumas e inquietações, transformando a personagem e uma espécie de seu alter ego, enquanto vive em sua mansão. E nesse ínterim, acompanhamos a história fictícia e a “real” correrem em paralelo, influenciando uma à outra.


Na trama, o problema começa quando a inspiração começa a vir além da vida de Raúl. Convencido que falta “algo” para o roteiro funcionar, ele se apropria de uma história bastante pessoal de sua assistente de muitos anos, Mónica, e o drama de alguém próximo a ela. Raúl defende sua autonomia sobre a história, e Mónica defende o direito à privacidade que cada um tem sobre sua própria vida.



“Natal Amargo” é um filme de dualidades. É sobre a oposição entre o que é apaixonante e o que é lucrativo, entre trabalho e vida pessoal, entre a vida e a fuga dela. Os personagens (imaginários ou “reais”) se veem entre a necessidade de proteger o que amam — seus trabalhos, suas verdades, sua integridade artística — e a vontade de quem está a seu redor. A arte surge como algo capaz de transcender a realidade árida da vida, mas também como catalisador para expor assuntos delicados. É, sobretudo, um filme centrado na luta entre a autonomia artística e a pessoal, e em como as pessoas se sentem ao serem observadas, lidas, instrumentalizadas. E também é sobre como se sentem ao observar, ler e instrumentalizar os outros. 


Aliás: há ainda uma importante camada a se considerar: do visual às temáticas abordadas em seu roteiro, Raúl é nitidamente uma representação do próprio Almodóvar. Um produto da autoficção que, ele próprio, produz autoficção. Fica o questionamento de até que ponto esse seguimento da trama é autobiográfico - quais detalhes da realidade escorreram para a ficção. Afinal, nenhum retrato artístico é 100% fidedigno. Tudo que passa pelo prisma da “criação” é marcado e transformado para sempre, mas ecos do real seguem. E nós, espectadores, somos mais uma camada de uma história sobre contar histórias. O “roubo” de histórias alheias por Raúl (e, aparentemente, por Almodóvar) é um “crime” em andamento do qual todos somos um pouco cúmplices. 



Tudo isso se soma a outros elementos temáticos comuns na filmografia do diretor - como a experiência feminina e o peso das relações familiares - em uma obra coesa, mas um tanto morna. Ainda que sobre clareza nas reflexões propostas, o filme soa insuficiente mesmo em suas tentativas mais diretas de catarse.  


Ambas as metades narrativas apenas “ensaiam” uma profundidade maior. Por um lado, Elsa, seu amado e suas amigas protagonizam diversos momentos interessantes, mas sua história não soa finalizada. Por outro lado, também não vemos o suficiente de Raúl, Mónica e os demais para ter um impacto emocional significativo. Em dado momento, o cineasta e sua assistente se enfrentam cara a cara e tudo no filme parece maior e melhor. Raiva, mágoa e ímpeto criativo transbordam da tela em uma situação melodramática e irresistível. Mas o que parecia o início de algo mais promissor se revela um pico de energia solitário.


No fim, a produção acaba soando para o espectador justamente como o roteiro que Raúl passa o filme todo escrevendo: um trabalho em construção, com muita verdade, mas cuja âncora emocional segue perdida em um horizonte ainda distante. De fato, o filme evita deixar as questões que propõe sem resposta - é nítido um posicionamento de Almodóvar por meio de sua obra em relação a alguns dos temas principais. Mas o resultado não deixa de trazer consigo uma incompletude incômoda e uma certa frieza, para um diretor conhecido por suas cores quentes. 


A proposta de “Natal Amargo” nunca parece ter sido falar de finais ideais — ou mesmo de conclusões, de forma geral — mas sim sobre autoria e paixão artística. Para Almodóvar, o artista pode ser invasivo e até antiético, mas é soberano. É dele o poder de trazer à existência o que não existia. Mas é ele também que é dotado do poder de frustrar. Se e quando quiser. Nos cabe embarcar ou não em suas criações.

 

Veredito: 3/5


Últimos textos

bottom of page