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"Bora pra Casa Bacurau?"

  • Foto do escritor: Samantha Oliveira
    Samantha Oliveira
  • há 14 horas
  • 5 min de leitura

Como o after mais famoso de Recife ressignificou a "insalubridade" da noite


Casa Bacurau completa 5 anos de existência e se consolida como 'after' oficial da noite recifense | Foto: Bruno Danttas/@brunodanttas
Casa Bacurau completa 5 anos de existência e se consolida como 'after' oficial da noite recifense | Foto: Bruno Danttas/@brunodanttas

O vento frio, ou melhor, o sereno vindo da Rua da Aurora dá logo espaço a um mormaço convidativo no momento em que as portas de madeira se abrem no meio. A quentura, luz baixa e o som característico de vozes cantando e conversando definem como são os primeiros passos de quem entra na Casa Bacurau. Um bregafunk das antigas, um hino pop que faz gays levantarem as mãos para cima ou aquele clássico musical que não pode faltar em uma noite de festa recifense é o que provavelmente está levantando o público persistente, no hoje consolidado after mais famoso da capital pernambucana. 


Mas, afinal, quais são os caminhos e acertos necessários para ocupar esse lugar no imaginário do público? Como ficar ‘na boca do povo’, ano após ano, quando a bebida começa a fazer seu efeito e a madrugada dá os seus primeiros passos nos ponteiros do relógio. Bora pra bacurau" virou sinônimo de curtir a noite de forma mais libertadora, irresponsável (no bom sentido da palavra) e, definitivamente, suada. E não por ser um lugar quente, já que os ar condicionados trabalham incansavelmente ao longo de toda a noite, mas sim pelo calor humano que parece ganhar vida própria e ser mais um companheiro de dança de quem ocupa a pista principal. 


Já são 5 anos de incontáveis festas, blocos na rua, concursos, transmissões e o que mais puder transformar a Casa Bacurau em um ponto de encontro. Afinal, essa identidade "caótica" e "livre" foram as palavras encontradas pelos próprios fundadores para definir os anos de trajetória e relação com o público. "A casa começou crua, despretensiosa, e isso faz parte da nossa identidade até hoje. Ao longo desses cinco anos, fomos entendendo o tipo de experiência que queríamos proporcionar, mas sem perder a essência", pontua Victor Alves, fundador da Casa Bacurau. 


5 anos na pista 


Do techno ao bregafunk, a Casa Bacurau construiu sua imagem como after oficial da cidade, mas também um ponto de encontro plural. O meme "rolê aleatório" se torna realidade ao se deparar com a programação da semana que, de terça a domingo, reflete as diferentes camadas do próprio público. “Não vemos sentido em limitar a experiência. Recife é uma cidade múltipla e a nossa programação reflete exatamente essa pluralidade. No fim, é sobre criar um espaço de encontro e construir algo coletivo", define o fundador.


Bruno Danttas/@brunodanttas
Bruno Danttas/@brunodanttas

"Nos consolidamos como o after oficial dos finais de semana, produzindo na madrugada para todos os tipos de pessoas. Mas a Bacurau não se contenta apenas com isso: operamos de terça a domingo com happy hour, drag queens, cozinha e jogos. O mais majestoso é a junção de tudo isso", diz, de forma orgulhosa, Amara de Melo, gerente geral e produtora da Casa.


Ainda assim, os dias sempre acabam na noite, e é necessário se debruçar sobre os cenários que ela traz consigo. No dia a dia de um espaço como a Bacurau, isso exige muito mais que equilibrar drinks em tempo recorde e aumentar o volume da música. 


"A noite potencializa tudo: emoções, expectativas e estados de espírito muito diferentes. Nosso trabalho é saber gerir essas emoções com responsabilidade, o que exige escuta constante e capacidade de mediação. Com o tempo, criamos uma cultura interna de cuidado, porque o que faz a casa existir são as pessoas",

continua Victor


“Lugar insalubre” e o pertencimento à noite 


Em um tempo em que, com a internet e o mundo cronicamente online se fundindo ao dia a dia, as palavras perdem os próprios significados e se tornam algo mais. No Recife, com seu dialeto próprio, não é incomum ouvir ou ler a expressão "lugar insalubre"  - que pouco se trata de um espaço nocivo ou perigoso, como a definição literal diz, e mais um ambiente quente, suado, intenso e livre. 


Bruno Danttas/@brunodanttas
Bruno Danttas/@brunodanttas

Esse pertencimento não está longe dos conceitos de construção de identidade, pertencimento LGTBQIA+ e, de certa forma, ocupação dos centros urbanos - principalmente sob os recentes contextos envolvendo o Centro do Recife. 


No espaço físico da Bacurau, os corpos ocupam esse lugar não só como frequentadores, mas também como DJs, funcionários, produtores, gerentes e afins. Como uma travesti jovem, Amara é um desses corpos: "Trabalho aqui há quatro anos, participei de decisões importantes e vejo que a Bacurau tem um lado bem definido politicamente". 


O posicionamento vem também com a promoção de debates de esquerda e também a política Trans Free que funciona na casa de eventos. "É para fazer com que as pessoas trans venham para esse espaço e consigam permanecer, além da contratação de pessoas LGBT em cargos de liderança", complementa a gerente. Essas pessoas, além de fazerem parte da resistência e movimentação da noite, também garantem que a insalubridade brinque com o público no sentido mais fluido e etéreo da palavra. 



Da porta pra rua também é Casa 


A Rua Capitão Lima, no bairro de Santo Amaro, não é a mesma desde que as portas duplas se abriram no número 100. Ainda assim, o trabalho de manter, ocupar e manter a atenção do público em um espaço localizado no centro da cidade é árduo e não depende apenas de um bom faturamento no fim do mês. 


O compromisso da Bacurau é com o entretenimento, mas também como forma de lazer e viver a cidade. Não à toa o aniversário da Casa, comemorado ao longo de todo o mês de maio, encerra seu "parabéns" com uma festa na rua, para além das paredes que já tanto presenciaram. 


Victor Alves destaca a importância da reocupação do centro, que vem perdendo cada vez mais espaço - como é o caso da Rua Mamede Simões - e atenção pública. 

"Faltam políticas mais estruturadas e contínuas, e não só editais pontuais. A  vida noturna depende de uma cidade que funcione depois de determinados horários", argumenta, reforçando que mobilidade e segurança ainda são desafios no Recife. 


Para o futuro - seja ele após o after da festa, ou os próximos 5 anos - o desejo é continuar como esse ponto de encontro para além do 'after'. "Que a casa consiga amadurecer sem perder a essência livre e caótica que cria nossa relação mais íntima e verdadeira com o público", finaliza o fundador. 


A esse ponto, a rua já voltou a ser rua e a pista esmorece. O mormaço de dentro dá lugar a outro tipo de sereno - aquele friozinho da manhã, com uma luminosidade à qual os olhos não estavam mais acostumados. Entre as lembranças de uma noite caótica e a clássica promessa de "nunca mais vou beber", o corpo vivo, político, suado e, agora, pouco resistente, comprova: o after foi um sucesso.


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