Nós sempre precisaremos de um “Superman”

Atualizado: 10 de jul. de 2025
Filme de James Gunn bambeia no tom, mas se mantém de pé graças à força do personagem — e do que ele representa.

O mundo de hoje é um lugar confuso. Conflitos sociais diários, desinformação e a segmentação em bolhas proporcionada pelas redes sociais direcionam as bússolas morais desta geração para muitos lugares opostos ao mesmo tempo. Talvez mais do que nunca, a realidade tenha se tornado um terreno fértil para ruídos, individualismo e desesperança. Não há respostas fáceis ou imediatas para quase nada.
Diante disso, é de se questionar como uma figura como o Superman — a personificação máxima do uso do poder para o bem na ficção — deve se encaixar. Ou, até mesmo, se ele sequer tem espaço. A resposta do diretor James Gunn a essa dúvida soa mais como uma volta às origens do que uma reinvenção. O Superman de “Superman” (2025), que estreou no último dia 10 de julho, abandona os tons frios e o distanciamento emocional da versão de Zack Snyder.
O que vemos é um homem de aço mais vulnerável, e que transborda calor humano e afetividade. Mais do que uma figura genérica que salva o planeta, o personagem David Corenswet surge convincentemente como um símbolo de coletividade e esperança em uma era de individualismo e cinismo. É essa energia emocionalmente sincera que contagia o espectador, driblando acenos pontuais da direção e do roteiro do novo filme da DC com o exagero e o equívoco.
Talvez a bondade seja o verdadeiro radicalismo

Em um catálogo de super-heróis quase infinito, o Superman talvez surja como o maior expoente de bondade que representa esse subgênero ficcional. O novo filme se joga nessa convicção sem nenhuma vergonha, e o Kal-El/Clark Kent que acompanhamos durante as pouco mais de duas horas de produção é um brutamontes com coração de ouro.
Sua bondade não reside em uma mera predestinação messiânica, e sim em uma escolha pessoal que transmite sua integridade. Ele é simplesmente uma pessoa que pode fazer o bem com as ferramentas que tem. A obra — e seu personagem-título — enxergam a beleza e validade em cada criatura viva, sejam humanos, robôs ou até bebês alienígenas. E a escolha do filme é expor justamente como a mera gentileza é um ato radical num tempo de tantas barbaridades.
E é com essas armas que o herói luta contra as artimanhas do clássico rival Lex Luthor, e, especialmente, contra a opressão. Todo o plot principal do filme gira em torno da intervenção do herói na invasão promovida por Boravia, um país fortemente militarizado, em Jarhanphur, um território mais vulnerável. Mesmo que não haja referências diretas a conflitos reais, é difícil não associar os temas tratados com ações recentes de nações como Israel e Rússia.
Aqui, James Gunn demonstra a mesma firmeza vista na crítica ao intervencionismo estadunidense em “O Esquadrão Suicida” (2021) e aos ideais da eugenia em “Guardiões da Galáxia Vol. 3” (2023), seus filmes mais recentes. Outro radicalismo que o diretor-roteirista adota na produção: se posicionar com firmeza, sem forçar relativizações em busca de um discurso mais “neutro” ou “moderado” por pura etiqueta ou covardia.

No caminho para exploração desses temas, eles são um tanto atravessados por um turbilhão numeroso de personagens e cenários, em um envelope cinematográfico que ameaça estourar de tão cheio. No caminho, perdemos a chance de conhecer mais a fundo a personagens com potencial — como os pais do Superman e a Gangue da Justiça.
Também se torna um pouco mais difícil criar uma relação mais profunda com o universo ficcional que o filme introduz, povoado de super-heróis, seres e cenários dos mais chamativos. Porém, mesmo com elementos que quase soam como distrações, a unidade temática do filme acaba preservada, graças ao olhar convicto de Gunn e ao desempenho infinitamente convincente, agradável e carismático de Corenswet.
O “Superman” de James Gunn chega com um senso de dever tão grande quanto o do herói que dá o nome. Entre suas grandes missões estão entregar qualidade em um momento em que filmes de super-heróis estão em baixa nesse sentido e inaugurar com sucesso um novo universo ficcional compartilhado nos cinemas. Outro desejo parece ser o de afastar a imagem sombria e sisuda da DC consolidada pelo controverso Zack Snyder.

Ao invés de recorrer a uma seriedade forçada, o filme adota um visual colorido que contrasta com muitos filmes cinzentos de super-herói — em especial da Marvel Studios. “Superman” é visualmente rico, e tem um ótimo trabalho de efeitos visuais. As soluções estéticas são criativas e agradáveis, seguindo o ritmo louco do filme, desde uma luta com um kaiju até um rio de antiprótons que mais parecem pixels. Tudo isso envelopado um andamento que, assim como o amável cão Kripto — é frenético, mas nunca cansa o espectador.
O filme é construído em cima da sinceridade emocional dos personagens, na esperança que o Superman inspira nas pessoas e momentos comédia, mas é preciso dizer que o balanço entre essas diferentes energias nem sempre é tão bem-sucedido. Em alguns momentos, o filme beira o pastelão, cruzando a linha entre “bobo na medida certa” - como por meio de personagens como o repórter Jimmy Olsen e o Lanterna Verde Guy Gardner - e “bobo além da conta”.
Lex Luthor, em especial, acaba sendo vítima de certas inconsistências do filme nesse sentido, mesmo que Nicholas Hoult entregue mais uma grande atuação. O ódio e a maldade do vilão acabam diminuídos em algumas cenas por uma direção que insistem em brincar um pouco demais aqui e ali. E em outros “aquis” e “alis”, é o roteiro que rouba um pouco do gosto, como no arco entre Clark e Lois Lane. David esbanja química com Rachel Brosnahan, e a atriz vencedora do Emmy constrói uma personagem irresistível. O único senão é a sensação de que perdemos grande parte do desenvolvimento do casal, que já começa o filme com conflitos de um relacionamento estabelecido.

Porém, ainda que o ímpeto pelo riso fora de hora e certas escolhas de roteiro possa incomodar, o coração do filme está no lugar certo, e no acender das luzes da sala, dessa vez, é isso que prevalece. “Superman” inspira sentimentos fortes assim como o herói azulado que o estrela. Bondade e gentileza são sentimentos que, frequentemente, soam piegas no cinema, mas aqui, a sensação é apenas de pura e completa honestidade.
Os habitantes do mundo ficcional de “Superman” não precisam apenas de um herói. Eles têm no Último Filho de Krypton um lembrete de que precisam acreditar na humanidade uns dos outros e de que vale a pena protegê-la. Qualquer semelhança com o nosso mundo não é mera coincidência.
Veredito: 3,8/5














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